Principais Características do Funcionalismo Público no Japão

800px-Jinjiin2

No Japão tem concurso público todo ano, mas o candidato não escolhe o cargo que vai disputar, a remuneração do funcionário público é ajustada com base na média da iniciativa privada (então na crise ela cai), o servidor é transferido a cada três anos e a ele são negados vários direitos trabalhistas. Estas e outras peculiaridades neste texto que preparei para o grupo de Direito Comparado Brasil-Japão.

https://burajiruhounokai.wordpress.com/2018/10/04/principais-caracteristicas-do-funcionalismo-publico-no-japao/

Anúncios

「ブラジル法の会」 - Os novos esforços do Partido Liberal Democrático para reformar a Constituição do Japão

Preparei uma brevíssima contextualização da nova tentativa de reformar a Constituição do Japão (lembrando que ela nunca recebeu uma emenda sequer desde que entrou em vigor em 1947) para o ブラジル法の会

https://burajiruhounokai.wordpress.com/2017/06/12/os-novos-esforcos-do-partido-liberal-democratico-para-reformar-a-constituicao-do-japao/

474341_146608652191364_1338823889_o

Sobre o direito dos estrangeiros ao seikatsu hogo (auxílio-subsistência) no Japão após a decisão da Suprema Corte

Como a maioria dos estrangeiros residentes no Japão já devem saber, a Suprema Corte do Japão decidiu que os estrangeiros residentes no Japão não são elegíveis para o auxílio-subsistência com base na lei que institui o benefício.Ocorre que a maioria dos veículos de imprensa não está noticiando exatamente isso. O Alternativa, por exemplo noticia que “Estrangeiros não têm direito ao seikatsu hogo, diz Suprema Corte“. Na mesma linha segue o Nikkei 永住外国人の生活保護認めず 最高裁が初判断  e o Yomiuri 生活保護外国人は対象外 中国籍女性が逆転敗訴.

Porém, a diferença entre “não ter direito ao seikatsu hogo” e “não ter direito ao seikatsu hogo com base na lei” não é mero preciosismo pois são duas coisas totalmente diferentes.

O entendimento até hoje sempre tinha sido que os estrangeiros não tinham direito ao benefício com base nos arts. 1º e 2º da Lei do Seikatsu Hogo, que fala em 国民, interpretando a expressão como “nacionais”, japoneses natos ou naturalizados. Os estrangeiros residentes vinham obtendo o benefício com base com base na instrução administrativa nº 382 do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social, que submete, portanto, o estrangeiro à discricionariedade dos poderes públicos regionais. Como consequência, o poder público regional decide de forma absolutamente discricionária se o estrangeiro irá ou não receber, e dessa decisão não há recurso.

A atual decisão da Suprema Corte confirmou esse entendimento. Não significa que não seja problemática, tinha o potencial de mudar a situação dos estrangeiros, transformando a concessão do benefício de uma benesse administrativa em um direito garantido em lei.

Infelizmente não foi isso que aconteceu, a Suprema Corte decidiu interpretar 国民 como nacional japonês, excluindo os estrangeiros, ainda que a interpretação contrária já ocorra com o Lei do Seguro Saúde e com a Lei de Pensão Nacional, que também utilizam 国民. Curiosamente, a obrigação de pagar impostos é definida na Constituição como uma obrigação dos  “nacionais” (国民), mas entende-se que estrangeiros também são contribuintes. Bastante conveniente não é mesmo?

Resumo da ópera: a decisão formalmente não muda nada, tinha potencial para ser uma conquista de direitos, mas não se tornou proibição do benefício concedido de forma administrativa. A questão agora é ver se as administrações regionais irão levar a decisão em consideração para discricionariamente não conceder o seikatsu hogo aos residentes estrangeiros.

Maioria das informações e interpretações retiradas do seguinte site: http://ameblo.jp/tokutake-satoko/entry-11896859417.html

Questões de gênero nos animes: Empoderamento Feminino e Igualdade em Gundam (1979)?

Matilda

Matilda

Nesse texto me aventuro  em um tema do qual não tenho base teórica alguma, então estou sujeito a cometer muitos erros, mesmo assim, vale a tentativa.

Em uma sociedade como a japonesa, tão desigual na questão de gênero, tão preconceituosa com as mulheres, é de se esperar que a indústria cultural reproduza e reforce tal desigualdade e preconceito. É o que acontece em muitos seriados, filmes, manga e anime. No caso desses últimos dois me parece até bastante grave, não apenas na óbvia questão de objetificação sexual das mulheres, mas na própria posição dentro das tramas em que são colocadas, camuflando o preconceito com personagens marcantes mas sem uma posição de poder (por exemplo, personagens femininas fortes mas também insanas, abobadas).

Então penso em uma série como Gundam (1979), uma época que talvez marca um daqueles ápices da desigualdade de gênero, uma série que, diga-se de passagem, está longe do retrato e posicionamento ideal das mulheres, mas ainda assim anos luz a frente da sociedade japonesa de ontem e de hoje.

Onde vejo os méritos da série no tratamento da questão de gênero? Em primeiro lugar, na questão de erotização, não há fan-services (nem sei se existia na época) e não há taradismo dos personagens, pelo contrário, existe uma enorme admiração dos personagens masculinos por personagens como a Matilda, sem nenhuma erotização.

Em segundo lugar vejo um empoderamento feminino que vem da própria concepção de igualdade, concepção esta tão óbvia que não precisa ser enfrentada de forma explícita na série. Explicando melhor, não existe estranhamento dos personagens masculinos diante de personagens femininas exercendo poder e participando das decisões, que as mulheres exerçam tais papeis é absolutamente natural na série. Ou seja, há empoderamento como condição óbvia na existência dos personagens. Esse tipo de “crítica” é ao mesmo tempo muito sútil, mas também muito mais inteligente do que ter as mulheres questionadas e depois dando a volta por cima, pois mostra um estágio mais avançado de humanidade, o estágio em que as mulheres sequer precisam passar por essas provações.

Aqui temos vários exemplos. Um dos mais óbvios é da própria Matilda, não há qualquer questionamento ou surpresa sobre sua posição de comando acima dos personagens masculinos, pelo contrário, além de admiração existe inclusive uma sensação de dependência dela que se torna uma guardiã da White Base.

Mirai_Yashima

Mirai

Outro exemplo que acho bem interessante é da Mirai, que assume comando da White Base em um momento da fragilidade psicológica do comandante homem. As personagens que passam a comandar a nave, as personagens que mais resistem ao stress são a própria Mirai e também a Sayla. Sim, a Mirai tem seus momentos de fraqueza e dúvida, mas não surge nenhum personagem masculino salvador para colocá-la no lugar, para dar o elemento racional e de comando tipicamente atribuído aos homens, não é o manual elaborado pelo Bright que faz a diferença, mas o suporte da Matilda e Sayla que tornam ela uma comandante.  E novamente me surpreendo que não é feito um único comentário questionando o comando de uma mulher. Se alguma crítica é feita, é sobre sua indecisão.

Há ainda outros exemplos, como a relação entre Ramba Ral e Hamon. Não importa o quanto o Ramba Ral seja “foda”, o respeito que ele mostra diante da Hamon e o próprio diálogo entre os dois passa uma relação de igualdade muito forte.

hamon

Hamon e Ramba Ral

Inclusive, essas mulheres lutam e morrem sem drama, sem ficar se apaixonando e chorando por algum personagem principal, não há entre elas tsundere, personagens fortes por fora e ridiculamente fracas por dentro. Existem na série vários elementos diferentes, submissos? Existem, a questão é pensar se são ao menos bem balanceados com com esses exemplos muito mais autênticos. Daí o “?” no título do post. Entre posturas machistas e e personagens femininas relevantes, e levando em consideração a época do anime, será que cumpre um papel positivo ou negativo no retrato de personagens femininas?

Me parece um retrato muito diferente de outras séries, como Saint Seiya por exemplo, em que as mulheres ou precisam ser protegidas o tempo todo, ou são falsamente fortes. Por exemplo, a Shina, com toda sua revolta, mas no fundo tem uma grande fraqueza é apaixonada pelo Seiya, ou seja, ela não existe por si mesma como personagem, está ali para elevar o Seiya como personagem principal. Semelhante é o papel da Marin, toda cheia de autoridade e poder, mas no fundo não é nada perto dos cavaleiros de bronze, é apenas irmã do Seiya. A Hilda, que poderia ser uma grande vilã, é apenas uma figura controlada por uma força masculina.

Enfim, Gundam (1979) quebra barreiras e estereótipos, não existe o tipo masculino forte e o tipo feminino forte, homens e mulheres são parecidos em qualidades e defeitos. Infelizmente a série não manteve esse padrão nos animes mais recentes

Creio que minha visão pode ser muito superficial ou otimista, e a contribuição de gente mais entendida seja na questão de gênero, seja nos próprios personagens da séries, pode ajudar a reforçar ou ou enfraquecer os pontos que levantei aqui. Mesmo assim, acho importante lançar a questão de gênero com seriedade, não ficando restrito aos questionamentos de ordem física (coisas do tipo: porque a armadura e roupas das mulheres são “sexualizadas” [nem sei se a expressão usada designa o que quero designar, mas dá para entender]).

Ps. Peço que me corrijam nas terminologias técnicas, nos erros com relação a trama, enfim, aceito contribuições sem qualquer constrangimento.

Tokyo Sonata – Mais uma recomendação de filme sobre a crise das relações sociais japonesas

TokyoSonata_OneSheet.FIN (Page 1)

Algumas semanas atrás postei algumas recomendações de filmes japoneses, todos com tons socialmente críticos (link aqui). Hoje apresento um filme que reúne muitas daquelas temáticas, mas em tom mais sóbrio que Kazoku Gemu ou Taiyo wo Nusunda Otoko, mostra de forma quase cronológica o processo de colapso de praticamente todas as relações sociais que compõem a vida dos japoneses.

Tokyo Sonata é um filme sobre a típica família de classe média japonesa. O salary-man chefe da família Sasaki, a esposa dona de casa, um filho mais velho que precisa definir seu futuro e o clássico caso do filho mais novo que precisa avançar para um bom colégio de ensino médio. Nesse ponto estrutural, nada muito diferente de Kazoku Gêmu.

Os problemas familiares também são parecidos. Distanciamento entre marido e mulher, entre pais e filhos, problemas na escola, incertezas profissionais e existenciais. A diferença é que Kazoku Gemu mostra a transformação relativamente positiva com a inserção de um elemento estranho no seio familiar, acaba retratando uma família estável em sua mediocridade. Tokyo Sonata, ao contrário, apresenta o total colapso de todas as relações sociais e hierárquicas em que os personagens se inserem no âmbito da família, escola, mercado e sociedade, uma crítica a três gerações japonesas, retrato das desilusões de cada uma dessas gerações.

Essa desestruturação se inicia com a demissão do pai de família, Sasaki, fruto da geração que viu o pleno emprego no Japão, empregados vitalícios na própria iniciativa privada que sem qualquer habilidade especial usufruíam da estabilidade econômica japonesa. Com a crise econômica de 20 anos, ele acaba sendo substituído por trabalhadores chineses que realizam as mesmas funções por 1/3 do salário. Claro que o superior não expõe a situação dessa forma, apenas diz que se ele não pode contribuir para o crescimento da empresa, precisa sair. Aí temos a primeira quebra hierárquica e social, a quebra do contrato não escrito de vitaliciedade, perda da relação de confiança hierárquica dentro da empresa. E com isso temos um indivíduo lançado ao mercado em seus quase 50 anos, um gerente sem habilidades e sem capacidade de lidar com o mercado de trabalho.

Aqui também surge a figura mais interessante que vi nesses filmes críticos da sociedade japonesa, que é o desempregado profissional. O personagem principal, na típica demonstração de falso orgulho, de tatemae japonês, não tem coragem de contar à esposa que perdeu o emprego. Continua saindo como se fosse trabalhar, mas passa o dia fora, frequenta agências de emprego e se alimenta de comida distribuída para moradores de rua e outros desempregados. Reencontra então um amigo, que aparenta ser muito bem sucedido, mas que também é um desempregado. O sujeito domina todas as técnicas para disfarçar a sua real situação. O celular programado para tocar periodicamente, falsas conversas no telefone, conhece os melhores locais para se passar o tempo lendo sem ser importunado, e (pensa que) engana magistralmente a esposa apresentando Sasaki como colega de trabalho.

A segunda quebra é a familiar, de autoridade e de afinidade. Irritadiço, se desentende com a esposa e filhos e perde sua autoridade.  O filho mais velho, de uma geração idealista mas sem grandes oportunidades, decide se alistar no exército americano sob o pretexto de proteger o Japão, contra a vontade dos pais. O filho mais novo passa a aprender piano, também contra a vontade do pai.

A propósito, a vontade de aprender piano é fruta do colapso da relação com a escola, representada pela relação entre o professor desinteressado , e o aluno que decide não ceder à hierarquia avessa aos questionamentos. Após ser injustamente acusado pelo professor, Kenji Sasaki desafia e quebra a autoridade do mesmo sobre a turma. Surge um abismo entre os dois, e o garoto descobre no talento musical um escape, a possibilidade de ingressar em um conservatório. Seria, na minha opinião a representação de uma terceira geração no filme, a geração que não é idealista e não é acomodada, apenas quer encontrar o seu lugar no mundo.

Ao longo desse colapso de todas as instâncias de relações sociais, veremos ainda o ladrão, excluído da sociedade, com quem a esposa do personagem principal acaba se envolvendo, afinal, são dois indivíduos alheios ao ambiente em que vivem, duas pessoas excluídas da própria existência, aquele por não pertencer à sociedade na qual se insere, ela por não pertencer à família. Aqui a relação entre marido e esposa sofre também a ruptura pelo adultério.

Nessa linha vemos passo a passo a desintegração completa de uma família.  Entre outras coisas, o filme é uma crítica pesada ao tatemae, mostra o potencial destruidor do interior do ser humano pela obssessiva manutenção das aparências . Mesmo assim, restará ainda uma mensagem de esperança ao final, esperança essa que passa necessariamente pela transformação pessoal de cada um, e mostra que a felicidade e a realização depende da fuga dos padrões sociais impostos pela sociedade japonesa.

Recomendação Aleatória de 4 Filmes Japoneses

Por motivos que ficarão claros em breve, estou evitando realizar comentários políticos no blog. Em substituição a esse tema dominante da página, vamos migrar um pouco ao entretenimento.

Nunca fiz um Top 5 ou Top 10 de nada por aqui, e não será dessa vez que farei, em compensação decidi recomendar 4 aleatoriamente 4 filmes japoneses com a única regra de não envolver samurais como tema principal. Esses filmes  não são nada obscuros mas que também não são muito mainstream (apesar de que todos são bastante populares, acredito). Não é uma classificação dos melhores que já vi, nem que são os melhores representantes de seus estilos ou diretores. É uma lista totalmente espontânea e os comentários são totalmente amadores. Vamos à lista.

1) 太陽を盗んだ男 (Tayo o nusunda otoko – The Man Who Stole the Sun) – 1979

Uma capa muito mais louca que o filme

Uma capa muito mais louca que o filme

tayo2

Uma capa mais fiel ao espírito policial do filme

É um dos filmes japoneses mais peculiares que já vi. Lida diretamente com temas bastante delicados e ainda por cima de forma satírica. O primeiro e mais evidente tabu com o qual trabalha é a questão da bomba atômica. Tendo em vista a trágica histórica história do Japão os filmes que lidam com essa temática costuma ser extremamente sérios, pesados e sombrios. Aqui, no entanto, o tema é tratado de forma meio cômica, com um professor de química de ensino fundamental que constrói uma bomba atômica caseira para ameaçar o governo e obter tudo que quiser, ainda que o personagem principal não faça ideia do que quer, e acabe pedindo coisas bastante banais, totalmente compatível com essa visão banalizante do terrorismo nuclear. O fato de ser satírico e até cômico não significa que no fundo não predomine um tom sério, o que torna especialmente difícil de classificá-lo.

O filme já é corajoso em abordar a questão nuclear no Japão, e mais, fala de terrorismo nuclear, mas antes mesmo disso apresenta um cenário que sequer costuma ser imaginado na ficção japonesa, que é o terrorismo contra o imperador. No caso, se trata de uma cena inicial em que um ônibus escolar é sequestrado e utilizado para uma tentativa de invasão do palácio imperial, com direito a metralhadoras, granadas, atiradores de elite…

Por sinal, o filme ainda tem umas boas perseguições de carro, bem ao estilo anos 70, 80. É um filme acessível, no sentido de ser divertido e ainda proporcionar a reflexão sobre temas polêmicos, ainda que até o momento eu não tenha realmente entendido qual o tipo de reação ou reflexão queria realmente provocar. De qualquer forma, gosto desse tipo de filme conflituoso com a visão dos estrangeiros com relação ao Japão, fugindo totalmente da sociedade harmoniosa e disciplinada e mostrando o caos interno dos indivíduos.

2 – 赤ひげ Akahige

Toshiro Mifune com uma barba épica

Toshiro Mifune com uma barba épica

Um dos meus preferidos do Kurosawa ( ainda que diga isso de todos os filmes dele). A temática social é bastante destacada. Assisti ele na época em que o programa “Mais Médicos” estava no auge da polêmica, e me pareceu apropriado para refletir sobre aquele momento, pois a função social do médico é o um dos primeiros temas a ser trabalhado na obra, especialmente a questão da postura do médico diante do paciente, e da importância da existência do médico independente das condições de infra-estrutura. Na clínica onde se passa o filme faltam remédios, faltam condições apropriadas, mas é a dedicação dos médicos, em especial do próprio Akahige (último papel do Mifune trabalhando com o Kurosawa) por meio da compaixão com os pacientes como indivíduos e não como clientes que comove que assiste.

O filme gira em torno em um primeiro momento sobre conflito entre o Dr. Niide “Akahige”, um médico bastante rigoroso atuando em uma clínica no interior do Japão no período Tokugawa e Yasumoto, um recém formado arrogante e egoísta que almeja se tornar médico pessoal do Shogun, despreza a clínica, a zona rural, as condições de trabalho, se acha superior por ter estudado medicina holandesa, ao ponto de acreditar que Akahige quer apenas roubar suas anotações. É a partir do contato direto com pacientes, e especialmente com suas histórias de vida, que ele toma conhecimento de seu papel para atenuar o sofrimento de cada indivíduo.

E ainda temos a chance de rever Toshiro Mifune desferindo umas bordoadas em uma leva adversários.

3) おくりびと (Okuribito) – 2008

okuri

Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, conta a história de um jovem músico que retorna a sua cidade natal no interior do Japão quando a orquestra em que toca é encerrada. Reconhecendo a própria falta de talento, vende o violoncelo e decide buscar um novo emprego. Acaba contratado por uma empresa que realiza ritos funerários (sem sequer saber o que a empresa faz). O filme trata com enorme sensibilidade temas como família, preconceito e, obviamente, morte. As relações retratadas são muito variadas: a vida do casal principal e o choque da mudança para o interior, que leva por parte do personagem principal, talvez metaforicamente, à um conhecimento muito mais profundo do  de seu próprio eu-interior; relações conflituosas entre pais e filhos, redenção familiar no momento da morte. No campo do preconceito, vemos o personagem principal ser evitado por amigos e ser tratado como inferior por conta da profissão, provavelmente preconceito remanescente da divisão social japonesa que colocava aqueles que lidavam com cadáveres como os mais baixos na escala social. Os funerais parecem funcionar como momentos de transformação e transição, passagens, e não como um fim. Em cada uma das cerimônias vemos a aceitação de diferenças, a conciliação entre partes, a superação de preconceitos. Mas me parece que paira a crítica de que os japoneses são muito distantes das peesoas que deveriam ser próximas durante a vida, exageram no tatemae, e apenas no momento morte das pessoas queridas amargam o remorso por esse comportamento

Enfim, um filme muito bonito, bem dirigido, bem executado.

4) 家族ゲーム (Kazoku Gêmu) – 1983

kazoku

Esse é um filme bem bizarro, seja na caracterização dos personagens, seja na direção. Retrata uma família japonesa estereotipada, a mãe dona de casa e o pai salaryman que vivem exclusivamente para ver os filhos entrarem em uma boa escola.  Um dos filhos é relativamente bem sucedido, tendo ingressado em uma ótima escola de ensino médio, o outro sofre com a pressão desse pré-vestibular característico do Japão (além de já ser um dos piores alunos da classe). Nesse ambiente estereotipado surge um estranhíssimo professor particular (interpretado pelo Yuusaku Matsuda, eterno Juubei Yagyu de Onimusha 2, para o pessoal da minha geração) contratado para melhorar as notas do rapaz. O filme passa um 気持ち悪い pela falta de naturalidade, para não dizer anormalidade dos personagens principais, que apresentam comportamento estranhos e relações disfuncionais. O professor particular é em alguns momentos desagradável (dando beijos no aluno, sussurrando de forma as vezes carinhosa, as vezes ameaçadora), em outros momentos agressivo. Seu aluno, Shigeyuki, é extretamente mimado, abusivo com a mãe, e na verdade parece meio abobado. Como na maioria dos filmes, a escola, longe de ser retratada como aquele ambiente idealizado que todos adoram pintar quando falam de educação no Japão, é outro ambiente disfuncional, com bullying, professores descontrolados e alunos indisciplinados. É claramente um filme que faz a crítica do impacto do crescimento econômico sobre a sociedade, que não acompanha a velocidade das mudanças, deslocando indivíduos e suas expectativas.

Shingeki no Kyojin, Hadashi no Gen e Studio Ghibli – Embate Político na Indústria Cultural

Diante das reações ao último post sobre o discurso da direita em Shingeki no Kyojin, percebo que, para que aquele texto faça sentido, é preciso a) que o leitor acredite que o embate político entre direita e esquerda é travado por meio da indústria dos animes e mangas; b) que o leitor entenda o fato daquela análise se inserir em um momento muito específico da política japonesa . Caso esse pressuposto não exista, os comentários que teci parecerão de fato apenas teorias sem sentido ou generalidades.

Por exemplo, alguém poderia dizer que aquelas analogias se aplicam a outras obras. Eu mesmo pensei em DBZ, com a questão das constantes ameaças de invasões de “fora”, da necessidade de se fortalecer, mas ali, além do discurso ser absolutamente diferente, o momento na política e na indústria cultural era outro.

Portanto, para que a premissa de que existe discurso político nos mangas/animes seja aceita, vou abordar três casos desse ano que mostram como um determinado momento político pode trazer a tona esses contornos de embate entre esquerda e direita, que podem estar explícitos ou implícitos nessas obras por meio da pessoa de seus autores.

* Aqui falo de esquerda e direita não de forma genérica, mas especificamente no contexto de direita japonesa, entendida como nacionalista, militarista, revisionista e xenófoba, e de esquerda especialmente no aspecto pacifista e cosmopolita.

I – Breve Background Político

jimintou

Em termos bem resumidos do background político, é importante que os leitores desses comentários tenham em mente o seguinte cenário. O Jimintou (ou LDP) é um partido da direita japonesa, com alas mais moderadas e mais conservadoras. Permaneceu no poder de forma quase ininterrupta desde 1955 (com apenas um ano de intervalo em 1993-1994). Desde a década de 50 o partido advoga contra a atual Constituição do Japão, que aboliu o exército japonês, retirou todos os poderes do imperador (inclusive o caráter divino) e apresentou conceitos de bem estar social e direitos humanos em lugar da ordem pública. São justamente esses os pontos que sempre quiseram mudar por meio de emenda constitucional, estabelecendo novamente o exército, restaurando alguns poderes imperiais, e dando novos contornos de um estado focado mais em ordem do que em bem-estar social.

Em 2009 o partido sofreu a maior derrota até então em eleições, retomando, no entanto, o poder no final 2012, com uma vitória muito expressiva, e com o retorno de Shinzo Abe, representante de uma ala mais conservadora, nacionalista e revisionista, que defende o papel do Japão na Segunda Guerra Mundial (já cogitou inclusive revogar os poucos pedidos de desculpas públicos feitos pelo país) e uma postura diplomática de agressividade defensiva, como se o Japão estivesse prestes a ser atacado por todos os lados, adotando, portanto, um discurso duro e as vezes alarmista.

O retorno ao poder dessa ala política se deve muito mais às propostas econômicas do que ideológicas, e diante da alienação dos japoneses com relação a política, pode-se dizer que seu eleitorado não é majoritariamente dessa direita tão conservadora. Mas é inegável que em tempos de crise, esses valores nacionalistas, essa postura defensiva se torna muito mais comum, mesmo sem um contorno político definido, e esse discurso passa a ser adotado ou defendido por grande parte população consciente ou inconscientemente. Nesse cenário surgiram alguns fatos preocupantes:

1) Hadashi no Gen

gen

Hadashi no Gen, ou Gen Pés Descalços, é um manga símbolo do pacifismo, um retrato teoricamente fiel do horror das bombas atômicas, que adota uma postura especialmente crítica contra o governo japonês da época, contra o esforço de guerra e contra o imperador. Publicado inicialmente na Weekly Shonen Jump entre 1973 e 1975, foi cancelado e posteriormente passou pela Revista Shimin e depois passou 4 anos na Bunka Hyoron, uma revista ligada ao partido comunista.

Por conta dessa vinculação explícita com a esquerda, e por declarações polêmicas contra o imperador e contra o exército e governo japonês, a obra sempre enfrentou alguma resistência da direita, o que não impediu de ser leitura presente em todas as escolas japonesas, e a exibição do filme é quase um ritual todos os anos em muitas instituições de ensino

Ocorre que, com a morte do autor Keiji Nakazawa em Dezembro de 2012, e com o retorno da direita conservadora ao poder, a obra tem se tornado alvo de casos absurdos de censura. Primeiramente, foi proibida e retirada das bibliotecas e escolas da cidade de Matsue, não só pela sua abordagem gráfica e realista, mas por ser considerado pelos conservadores e revisionistas japoneses como um retrato incorreto da participação do Japão na Guerra (aqui a crítica se foca especialmente nos casos de castigos corporais retratados, na opressão do exército contra civis e etc). Isso tudo partiu de um suposto lobby do Zaitokukai, uma associação de extrema direita contra direito dos estrangeiros (sim, isso existe, segue o link: http://en.wikipedia.org/wiki/Zaitokukai).

Uma petição online com 21.395 assinaturas foi apresentada no comitê educacional da escola e reverteu a situação em 26 de agosto de 2013

E a polêmica com “Gen” continuou com um pedido de nível nacional para retirada do mangá como material de ensino nas escolas:

http://sankei.jp.msn.com/life/news/130911/edc13091115490004-n1.htm

Para quem não lê ainda em nihongo, segue a página da wikipedia em inglês sobre a associação que fez o pedido, o que vai dar uma noção bem clara da agenda política por trás disso tudo.

http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_Society_for_History_Textbook_Reform

2) Ghibli Studio

The-Wind-Rises

Por trás da beleza dos animes Ghibli e da qualidade excelente dos roteiros,  existe um verdadeiro engajamento na transmissão de alguns ideais nessas obras. Especialmente nos filmes dirigidos por Hayao Miyazaki temos as temáticas mais claras como a defesa do meio ambiente, bem como críticas mais sutis (ou não) contra o capitalismo, consumismo e etc. Além disso, Miyazaki é declaradamente socialista e foi líder sindical na década de 60. Recentemente (julho de 2013) ele e outros diretores como Isao Takahata publicaram artigos abertamente contrários ao Primeiro Ministro Abe e às tentativas de militarização do país (ainda escreverei um post com review desses artigos).

Some-se a isso o lançamento de seu novo filme, Kaze Tachinu, que também trata de questões polêmicas sobre a guerra . Em meio a elogios, críticas e acusações de traidor, Miyazaki anunciou sua aposentadoria. Claro que devemos levar em conta principalmente sua idade , o trabalho extenuante que é dirigir um anime e etc, mas acredito que o desgaste com a política também existe, nem que seja de consciência. Em uma época em que os valores contras os quais luta parecem prevalecer, se torna necessário se posicionar politicamente para além de suas obras, provavelmente o esforço acaba sendo grande demais para o diretor.

Com isso, mostro mais uma vez o diálogo explícito entre anime e política, e como essa relação está muito forte em 2013.

3) Shingeki no Kyojin

shingeki-no-kyojin-4-eren-vs-colossus

Assim, chego a Shingeki no Kyojin. Seria o “boom” do mangá e o sucesso do anime justo em 2013 uma coincidência? Acho que não, mas não por uma força política misteriosa operando uma conspiração, acredito apenas que o sucesso da obra seja produto desse momento político específico, de um chamado inconsciente dos jovens para alguns valores da direita, isso sim conscientemente produzido pelos políticos, mas estes também produtos de seu tempo, posteriores a geração que vivenciou o pior da guerra e pós-guerra. Não creio que a obra tenha sido escrita especificamente para manipular as mentes por meio das alegorias que falei no post passado, ao contrário, creio que o autor seja reflexo desses ideais que o Jimintou propaga faz 50 anos, e ele apenas reproduziu inconscientemente o discurso com o qual sentiu alguma afinidade. No momento em que essas ideias ganham poder nacionalmente, o manga encontrou um público receptivo e aberto à mensagem ali contida.

Diferente de obras como Gen, ou dos animes Ghibli, que procuram produzir conscientemente um ideal, Shingeki me parece mais como uma simples ferramenta de reprodução de uma mentalidade conservadora.  Mas em um momento de predominância da direita no poder, aqueles sofrem ataques, enquanto este… bom, se existe influência política ou não, a meu ver favorece a disseminação de uma mentalidade que será fundamental caso o Jimintou queira modificar a constituição.

Ficção Científica Japonesa – Contrastes entre Hoshi Shinnichi e obras ocidentais

Capa de Bokko-chan

Capa de Bokko-chan

Terminei de ler recentemente a coletânea de contos Bokko-chan (ボッコちゃん) de 1971 do escritor japonês Hoshi Shinnichi. Meu primeiro contato com o autor ocorreu nas aulas de japonês da Soka Daigaku por meio do curta de animação adaptação da obra おーい でてこーい (ooidetekooi), uma história bem curta e simpática  com um ambiente misterioso e um tom de crítica ambiental realizado em poucas palavras. Segue link do vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=hgWOHzp_T-E

Apesar de algum interesse em outros contos do autor, que conheci também por meio de vídeos e curtas, só nesse ano tive contato com sua obra escrita. Devo confessar que o primeiro sentimento foi de decepção. Decepção pois a qualidade dos contos oscila muito, alguns deles são entediantes, outros são “bobos”, outros tem finais ridículos, e apenas alguns poucos conseguem realmente repetir a sensação que  おーい でてこーい havia me passado. Porém, acho que o sentimento pós leitura melhora um pouco a qualidade da coletânea em si, especialmente quando você observa que existe um fio condutor de tudo, uma espécie de repetição de temas e formas que se combina e dá significado até aos contos mais simples.

A propósito, essa coletânea de reúne histórias de ficção científica, mistério e algumas de fantasia integrada a um cenário atual ou futurista. Alguns cenários são bastante recorrentes: 1) missões espaciais em visita a outros planetas com vida inteligente e geralmente semelhantes à Terra e aos humanos; 2) Chegada de extraterrestres ou objetos alienígenas à Terra, e a respectiva reação ou interação com os humanos; 3) assaltantes invadindo casas, cometendo crimes, com desfechos bizarros de captura ou confissão; 4) futuros meio utópicos meio distópicos.

Além disso, percebo algumas críticas também recorrentes ao capitalismo, consumismo, degradação do meio ambiente, guerra, violência e etc.

Talvez no futuro eu faça uma lista dos contos que gostei e dos que achei ruins, e quem sabe aborde alguns desses temas em detalhe, mas hoje opto por outro tema, o paralelo da ficção científica de Hoshi com dois filmes inspirados em livros de ficçao científica ocidentais: Minority Report e Children of Man. Vamos aos paralelos

1) Minority Report x 生活維持省 (tradução livre: Ministério de Preservação da Vida)

Minority Report é um filme baseado na obra homônimo do Phillip K. Dick que mostra um futuro próximo no qual uma divisão da polícia chamada Pré-Crime conseguiu acabar com os assassinatos punindo os “criminosos” antes que cometam crimes, por meio de previsões de três paranormais chamados precogs. Em algum momento da trama o chefe da equipe, John Anderson, recebe a previsão de um homicídio que ele mesmo irá cometer, o que leva a sua tentativa de provar ser inocente, de evitar cometar o crime, e eventualmente se torna uma jornada que mostra que esse sistema é imperfeito. O questionamento aqui não é só a possibilidade de ser armar uma falsa previsão de homicídio, mas no próprio fato absurdo de se prender alguém que efetivamente não cometeu crime algum. Me parece que é um história que questiona o poder do Estado e da polícia sobre as pessoas, e talvez celebre de alguma forma a liberdade, acima que uma ordem social perfeita.

Em 生活維持省 também nos deparamos com um futuro próximo utópico, nesse caso ainda mais impressionante, sem crimes, com um meio ambiente preservado, vidas tranquilas e etc… O conto segue o dia de trabalho de 3 funcionários do tal Ministério de Preservação da Vida, que recebem alguns cartões com nomes e endereços e saem para a missão de campo diária. Entre conversas sobre sonhos para o futuro que ilustram essa sociedade perfeita, é revelado que o que está por trás dessa paz aparante é um sistema no qual o Estado seleciona aleatoriamente pessoas que são mortas numa espécie de controle da população mundial. A missão do dia ilustra como eles friamente matam uma criança que tinha ido colher morangos, e argumentam com a mãe da menina sobre a necessidade do ato e como ela deveria saber e até sentir agradecida por isso. A virada da história é que um dos cartões continha o nome de um dos três agentes, que, sabendo desde o início do fato, e aproveitando o belo cenário em que se encontra, pede para ser morto ali, perto de um rio.

Nos dois casos temos utopias que se revelam distopias, mas o mais interessante é que em Minority Report existe uma luta pela sobrevivência e pela transformação do sistema, enquanto que 生活維持省 existe a resignação e aceitação. Ambos são críticas, mas em Minority a crítica parece ser mais ao sistema, enquanto em 生活維持省 tenho a impressão que a crítica se dá a partir da crítica a apatia e frieza das pessoas, que em nome de um interesse falsamente não egoísta como ordem social sacrificam inocentes para ter uma vida perfeita. Talvez essas diferentes perspectivas venham, por um lado, da eterna luta simbólica dos Norte-Americanos pelo que chamam de liberdade, e a questão de não se render nunca ao governo, e, por outro lado, ao caráter japonês de resignação, de não levantar sua voz diante de injustiças e diante das imposições as vezes absurdas em nome da ordem social.

2) Children of Men x 最後の地球人 ( tradução livre: O(s) último(s) Terráqueo(s)) (pdf aqui)

Capa da edição de Taiwan de 最後の地球人

Capa da edição de Taiwan de 最後の地球人

Children of Men retrata um mundo em que os seres humanos são atingidos por algum tipo infertilidade, se não me engano de origem não explicada, que após algumas décadas leva a um colapso da sociedade diante de sua iminente extinção. Surge entretanto, uma mulher grávida sabe-se lá de onde, e um funcionário britânico faz de tudo para salvar essa mulher e especialmente a criança, numa tentativa, quem sabe, de impedir o fim humanidade (faz algum tempo que vi o filme, posso estar equivocado sobre a visão, mas se creio que não pode estar muito longe a ponto de anular o paralelo).

最後の地球人 também mostra um futuro meio distópico, em que a população cresceu muito, animais e plantas foram extintos, a terra se torna uma grande metrópole e repentinamente os seres humanos são atingidos por uma infertilidade não explicada. Entretanto, nessa obra, ao contrário de Children of Men, os seres humanos acabam aceitando isso como inevitável, e vendo toda a riqueza produzida por todas as gerações, e sabendo que não vai haver ninguém para usufruir no futuro, decidem parar de trabalhar, todos se tornam uma classe de nobreza que vê os humanos do passado como escravos, e que tem obrigação de aproveitar a vida como últimos humanos. Eventualmente a humanidade é reduzida a duas pessoas que voltam a um estado de Adão e Eva, sem vergonha de seus corpos, em uma relação de amor próxima da perfeição. Depois de algum tempo a mulher, grávida, morre no parto, o homem se suicida, essa criança é nutrida por uma máquina até o dia em que o equipamento quebra e ela sai nesse mundo vazio.

Aqui a diferença é parecida com a do primeiro caso. Na obra ocidental há uma luta pela mudança, enquanto na obra japonesa temos a resignação. Na obra ocidental temos o homem Hobbesiano, que com a quebra dos governos se torna violento, um predador do próprio homem, e na obra japonesa algo mais próximo de um bom selvagem, o retorno do homem à realidade pré-pecado original e etc.

Enfim, não tirei maiores conclusões disso tudo, mas acho que rendeu boas reflexões e com o tempo pode render algo mais.

Jovens japoneses participam pouco das eleições, até 40% menos que os idosos

Segundo pesquisa da 明るい選挙推進協会 (Associação para Promoção de Eleições Justas), a taxa de participação dos jovens (faixa dos 20 anos) nas eleições da Câmara Baixa ainda mantém uma diferença de cerca 40% em comparação com a participação de pessoas com mais 60 anos.

O resultado pode ser visto no gráfico abaixo

syu_nendaisui

Explicando a imagem, cada linha no gráfico corresponde a uma faixa etária, vermelho claro 20 anos, verde 30 anos e assim por diante. Na coluna azul o primeiro número é o número da eleição e abaixo o ano em que ocorreu, no calendário japonês. Por exemplo, a Eleição de nº 46 aconteceu no ano 24 da Era Heisei, que equivale ao ano de 2012.

A principal explicação apresentada no relatório a ONG é o fato de que as pessoas mais velhas estão mais integradas na sociedade, e dessa forma tem maior integração e consequentemente maior consequência política.

Faz sentido até certo ponto, especialmente se considerarmos que os japones realmente dividem a vida em duas partes: gakusei (estudante) e shakaijin (pessoa/membro da sociedade, em tradução livre), sendo que esta última é um “título” conferido depois que indivíduo se forma ou começa a trabalhar. Como a maioria se forma depois dos 20 anos, realmente, até ali e talvez por vários anos ainda demoram a perceber que sempre foram membros da sociedade. Claro que são denominações informais, mas sou testemunha de que o uso das expressões é absolutamente comum.

Tenho certeza que outros elementos podem ser considerados, que pode ir desde o ócio dos aposentados, até o tipo de educação de cada geração. Quem tem sessenta anos hoje foi educado em um período de democratização, talvez isso conte muito.

A propósito, aquele aumento grande na participação entre as eleições 43 e 45 coincide com um período grande de insatisfação com o governo, agravado com a crise de 2008 que levou a uma enorme participação das pessoas na busca de uma mudança no poder (e com muito incentivo da mídia), tendo em vista a hegemonia do LDP desde 1955 (com um único pequeno intervalo entre 1993 e 1994). De fato, na eleição 45 de 2009 o DPJ teve uma vitória expressiva.

Enfim, deixo aí números interessantes para quem quiser refletir.

Human Empowerment – ou como o relativo sucesso do governo revoltou a população

Esfriadas um pouco as manifestações, expostas as opiniões em todos os espectros políticos, decidi escrever um texto um pouco mais técnico sobre como avalio os protestos que atingiram o país, e, especialmente, porque acho que muito dessa revolta foi direcionada sobre as pessoas erradas pelos motivos errados e sobre as pessoas certas pelos motivos errados.

Inglehart e Welzel são dois cientistas políticos que desenvolveram algo chamado “Human-Empowerment Model”, em tradução livre, Modelo de Empoderamento Humano, descrevendo a forma como o poder passa para as mãos do povo na transição entre a democracia meramente representativa e a democracia efetiva.

Os primeiros componentes desse modelo são os Recursos de Ação, basicamente os recursos materiais e cognitivos que permitem às pessoas governaram as próprias vidas e que levam ao segundo componente do modelo, os valores de Auto-Expressão, igualdade de gênero, tolerância à estrangeiros, homossexuais e etc, enfim, prioridades que só se tornam prioridades quando as condições materiais básicas estão supridas. A terceira fase é o fortalecimento das instituições democráticas, a legitimidade dos representantes.

O primeiro componente está ligado diretamente ao desenvolvimento econômico do país, afinal, superadas as barreiras materiais básicas as pessoas passam a ter exigências de ordem psicológica e política mais complexas.

Em 11 anos de governo do PT a evolução dos indicadores econômicos é claramente MUITO superior aos anos que antecederam. Não se trata de uma defesa do partido, é uma constatação importante inclusive para desenvolver a crítica contra o partido. Seguem os dados:

Exportações

brazil-exports

PIB per capita

brazil-gdp-per-capita

Dívida proporcional ao PIB

brazil-government-debt-to-gdp

Taxa de Juros

brazil-interest-rate

Desemprego

brazil-unemployment-rate

Salários

brazil-wages

Não precisa ser especialista para perceber que 2002 marca em todos os casos um claro momento de mudança. Se é por conta de méritos da política econômica do governo ou conjuntura da economia mundial, não sei, mas os números estão aí. Some-se a isso outros dados como os números recordes no combate à pobreza  e a ascensão de uma nova classe média e fica claro que a primeira parte do Empoderamento Humano vem avançando a passos largos no Brasil.

Faltou competência do governo, entretanto, em se antecipar e suprir a segunda e terceira fase. Satisfeita com a estabilidade econômica, a população volta suas atenções para a boa governança, medida pelo Banco Mundial em termos de , Responsividade, Accountability, Estabilidade Política, Regulação de Qualidade, Efetividade do Governo, Respeito ao estado de direito, combate à corrupção… Nesses pontos as estatísticas mostram que o Estado não evoluiu de forma decisiva:

Accountability

chart

Estabilidade Política

chart (1)

Eficiência do Governo

chart (2)

Qualidade Regulatoria

chart (3)

Estado de Direito

chart (4)

Controle da Corrupção

chart (5)

E não só não evoluiu como não educou politicamente a população para exigir isso. Consequência: as pessoas não sabem exatamente o que querem. Confundem indicadores de economia e de governança (ou nem sabem que existem), não identificam os méritos econômicos e criam deméritos para justificar os problemas de sempre: corrupção, ineficácia, falta de prioridades.

O Governo do PT deu poder às pessoas para exigir mais que a sobrevivência, mas ainda não soube se comprometer com esse algo a mais. Esse não foi o governo mais corrupto, mas colhe com uma pitada de injustiça e um pouco de merecimento um ódio de certa parcela da população. É injusto em parte, porque obviamente nem tudo de ruim é culpa do poder executivo, muito menos do governo federal, é injusto porque a classe média “clássica” é arrogante, não se educa politicamente, fala do que não sabe com a propriedade de um especialista (e ai do especialista de verdade que questionar as verdades da classe), , em termos atuais, só sabe compartilhar foto de facebook sem ler. Ao mesmo tempo é merecido pois ao dar condições materiais para a população, o governo não se atentou que, tendo o básico, o elementar, as pessoas percebem como era pouco, e vão querer não apenas o básico, mas o básico de qualidade não só em nível material, mas ideologicamente vão querer exercer seu poder de direito sobre o governo.

E na carona das exigências legítimas virão as exigências mais descerebradas da elite, da parcela alienada da classe média. Mas se exigem absurdos, se cobram sem saber de quem cobrar, é em grande parte culpa do governo que não é transparente, que nunca deixa claro os canais legítimos de cobrança e as competências de cada ente. Não educa a população em exercer a democracia efetiva e ainda por cima reforça a crise na própria representatividade com um partido de identidade esquizofrênica.

Minha conclusão nisso tudo é que o PT foi positivamente responsável por uma série de melhorias que levaram, junto com outros “n” fatores, a um descontentamento geral, a uma série de revoltas mal direcionadas mas que são muito claras em uma coisa (ainda que os manifestantes ainda não tenham percebido que o que querem pode ser expresso de forma clara): as coisas precisam mudar institucionalmente, precisam ser mais transparentes para que as pessoas possam descobrir o que querem e como querem. Ainda vivemos em uma cultura tão atrasada que parte da população acha que só o voto é instrumento legítimo de cobrança e outra parcela acha que só impeachment, renúncias, atos de autoridade do poder executivo esmagando parlamentares eleitos, enfim, que apenas destituindo pessoas a realidade poderia mudar. É o velho personalismo que predomina na mentalidade latino americana. O problema não são os governantes ou os partidos, não são necessariamente as leis e talvez nem mesmo a estrutura básica das instituições, mas o sistema de CONTROLE da população sobre eles, especialmente a falta de  cobrança organizada por meio da sociedade civil (séria, não certos grupos alienados e conservadores que existem por aí).

Propor um plebiscito para reforma política mostra uma tentativa de melhorar essa interação entre povo e governo, mas é crível que boas decisões sejam tomadas exatamente por essa população (e por essa população não falo dos pobres não, falo justamente da classe média semi-educada com curso superior em arrogância) que ainda não entendeu como o sistema funciona? Mudança a toque de caixa sem muita educação política? Se as pessoas acham que corrupção como crime hediondo pode resolver qualquer coisa, não seria surpresa se fossemos presentados com propostas absurdas como voto distrital, fim de partidos políticos, novo cheque em branco para financiamento privado das campanhas. Enfim, saíram todos ludibriados com uma falsa mudança.