Atividades de pesquisa na Universidade de Tokyo

Akamon, a mais famosa entrada da UTokyo

Akamon, a mais famosa entrada da UTokyo

Uma das minhas grandes dúvidas sobre minha vinda ao Japão era o significado da posição de Pesquisador. O que posso ou devo fazer, que tipo de categoria de estudante é essa, como se diferencia das outras?

Pois bem, o Pesquisador na Universidade de Tokyo (e creio que nas outras Universidades Japonesas) é formalmente aluno da Universidade, mas em um programa non-degree, ou seja, sem titulação. Posso usufruir da mesma estrutura que os demais estudantes, sou formalmente vinculado ao Departamento de Direito e Política, porém não recebo crédito pelas atividades que desenvolvo. Fui posicionado dentro da área de Direito Comercial, um fato curioso já que no Brasil minha pesquisa, que lida com a Regulação e Organização do Sistema Financeiro, mais especificamente sobre as regras que regem os órgãos ou instituições reguladoras (Banco Central, Agência de Serviços Financeiros e etc) ficaria no Direito Público e não Privado. Ocorre que aqui a regulação do sistema financeiro é uma parte do Direito Financeiro (privado), disciplina mais ou menos encaixada no Direito Comercial por se relacionar com legislação bancária e especialmente de Mercado de Capitais e Valores Mobiliários, dessa forma estou adquirindo conhecimentos não só sobre a organização do sistema financeiro, mas o efetivo reflexo nas atividades privadas.

Departamento de Direito

Departamento de Direito

Aparentemente os pesquisadores se dividem em dois grupos: aqueles que na posição de pesquisador aspiram ao ingresso no Mestrado ou Doutorado, e aqueles que realizam a pesquisa por outros motivos (com mestrado em andamento em outros países, por interesses individuais, profissionais e etc…).

Pertencendo à primeira categoria  tenho a possibilidade de desenvolver melhor meu projeto, e ao produzir um Relatório de Pesquisa considerado excepcional pela banca posso inclusive ser dispensado da prova de ingresso, passando apenas por entrevista. A pergunta, portanto, continua, o que faço nesse período anterior ao processo seletivo?

O pesquisador, ao chegar na Universidade de Tokyo, é acompanhado por um Professor Orientador, responsável pela supervisão acadêmica do aluno, e por um Tutor (aluno do Mestrado ou Doutorado, no meu caso aluno do segundo ano do Doutorado), responsável por auxiliar nas questões da vida acadêmica e pessoal (ir ao Banco junto, ajudar nas questões burocráticas, repartições públicas. Teoricamente ambos auxiliam a vida acadêmica em âmbitos diferentes. O Orientador tem a palavra final sobre a pesquisa, mas o tutor tem competência e (mais) tempo para dar enorme auxílio, seja no desenvolvimento da tese, seja na indicação de livros, seja até mesmo na correção de ortografia.

Cheguei aqui bastante perdido, tirei uma semana para ajeitar a vida, basicamente mobiliar a casa, fazer os registros na autoridade Municipal, Seguro Saúde Obrigatório, Conta Bancária (que já tinha aberto em 2010) e contrato de celular. Sobre esses procedimento escreverei em outra ocasião. O que importa aqui é que após me “assentar”, me consultei com veteranos, meu Tutor e meu Professor sobre o que devo fazer. Tenho duas chances de ingresso no mestrado, e com a dispensa do Curso de Japonês, posso ir direto à preparação para o processo seletivo e à condução da minha pesquisa.

Defini, portanto, que irei acompanhar uma quantidade pequena de aulas, passando mais tempo no Kenkyuushitsu, a sala de pesquisa. Antes de falar das aulas, é interessante mencionar que essa sala de pesquisa é um ambiente de acesso restrito dentro da Universidade no qual tenho meu próprio espaço (mesa, cadeira, e, principalmente, prateleiras) e onde posso passar o dia inteiro conduzindo minhas atividades acadêmicas. Em outros cursos é o chamado Laboratório. Essa sala fica em um ambiente bastante propício para o estudo, dentro do mesmo prédio que outras dezenas de salas de professores, mestrandos e doutorando, e junto com a Biblioteca de Ciências Jurídicas e Políticas. Das 33 Bibliotecas existentes no meu Campus, essa é a que mais utilizo, pois nela tenho autorização de empréstimo de 50 livros (sim, 50!) por três meses. Os 6 andares contém praticamente qualquer obra necessária, e as que não forem encontradas podem ser solicitadas pois a Biblioteca providencia junto à outras instituições e Cmapus. Dessa forma, com base na bibliografia definida no projeto, junto às sugestões dos professores, tutor e veteranos, passo o dia inteiro nesse ambiente realizando leituras e anotações.

Minha mesa na Sala de Pesquisa

Minha mesa na Sala de Pesquisa

Entre esses períodos de pesquisa participo de algumas aulas:

1) Direito Comercial 1 (disciplina de graduação em japonês)

2) Global Securities Market Law (seminário da Pós, em Inglês, coordenado pelo Professor Hideki Kanda, o grande nome no Japão em Direito Comercial, Regulação do Sistema Financeiro e Governança Corporativa. Por sua posição de destaque temos participações especiais, como do Professor Vedat Akgiray, Ex-Chairman da Capital Market Board da Turquia, e teremos em breve a presença do Diretor Jurídico do FMI, Sean Hagan)

3) Lei de Transações e Instrumentos Financeiros (disciplina da Pós, em japonês)

4) Grupo de Estudos de Jurisprudência Comercial e Financeira (formado por Professores de várias Universidades e alunos da UTokyo, são duas decisões judiciais a serem lidas por semana e analisadas por professores na semana seguinte. São temas peculiares como Contratos de Derivativos de Terremotos, Empréstimos Sindicados, e em alguns casos questões mais comuns como ações de reparação de danos contra administradores e auditores)

5) Introduction to Japanese Law in English (nome auto explicativo)

A ideia é não sobrecarregar minha carga horária, introduzir o Direito Japonês e me habituar à linguagem técnica. Assim, minha rotina tem sido em grande parte comutar ao Campus de Hongo (são três trens, 30 minutos de viagem, utilizados para o estudo, inclusive), dedicar o dia à atividade acadêmica e retornar ao apartamento no alojamento, que por ficar a 5 minutos de locais vibrantes como Shibuya e Shimokitazawa permite facilmente que a rotina pesada não se torne estressante.

Shibuya, movimentada o tempo inteiro

Shibuya, movimentada o tempo inteiro

Enfim, essa é a visão geral das minhas atividades no momento. Existem detalhes interessantes dessa rotina que merecem artigos separados, que vão desde o contato com meus colegas de pesquisa (coreanos, taiwaneses e chineses), o conteúdo e a forma como as aulas são conduzidas, o perfil dos alunos e professores (pouquíssimos advogados, por exemplo), mas isso ficará para o futuro.

Penso que os demais Bolsistas do MEXT ( Ministry of Education, Culture, Sports, Science and Technology) na posição de pesquisadores devem ter peculiaridades em suas atividades conforme a área e Universidade, mas em linhas gerais imagino que também há muitas semelhanças, então pode ser que esse (não tão) breve relato esclareça a atividades dos outros Bolsistas pelo país.

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21 Respostas para “Atividades de pesquisa na Universidade de Tokyo

  1. Boa tarde Eduardo, faz uns meses que acompanho seu blog porque acho muito interessante os relatos de sua vivência no Japão. Agora na pós-graduação aumentou minha curiosidade. rs.
    Estou no primeiro ano de Ciências contábeis e gostaria de saber: Você tem ideia de como é a profissão de contador no Japão. Nessa área é comum encontrar bons mestrados e doutorados?

    • Cara, não faço ideia de como é o cenário da profissão por aqui, nunca nem ouvi falar do departamento nas Universidades, mas com certeza deve ter um bom posicionamento no mercado porque como o país tem muitas empresas com capital aberto as regras de contabilidade, financial reports e etc são bastante rígidas e exigem profissionais bem qualificados.

      • Olá Eduardo achei seu site procurando no google sobre a justiça no japão, mas é melhor perguntar direto a quem entende do assunto do que tirar informações abstratas. Se você pude me ajudar agradeço muito, gostaria de saber como funciona a justiça ai no japão no quesito quebra de patentes, tipo a samsung violou alguma patente da apple etc.., se o direito de patente ai no japão é severamente respeitado ou não(como no brasil) e se ai a justiça é prontificada a ajudar aqueles que tem o direito. se a justiça ai é onipresente em casos assim na quebra dos direitos, se ela age mesmo. Valeu amigo obrigado! e sucesso no blog.

      • Wagner, infelizmente meu conhecimento sobre o cenário atual da aplicação das leis de propriedade intelectual no Japão é nulo, então não poderei esclarecer sua dúvida. Desculpe.

  2. Pingback: Bolsa de Estudos do MEXT (Monbukagakusho) – Como e Porque estudar no Japão | Nihon Go !·

  3. Eduardo, muito bacana seus posts. Fiquei feliz em saber que um conterrâneo nosso teve a oportunidade e o mérito para estudar na Todai. Confesso que também é um desejo meu. Faço Biologia, e gostaria de seguir para o Japão após a graduação, no entando eu estou tendo dificuldades justamente em entender como funciona a biologia por aí…Eu gostaria de saber as áreas com mais oportunidade, vê se consigo unir o útil ao agradável já que de tantas áreas possíveis, ainda não consegui definir uma pra seguir rsrs. você saberi algo sobre isso? Talvez sites que contenham informações…Eu fui nesses aí mas de forma direta não encontrei nada, até porque não tenho uma opção definida.

    • Olá Rafa,

      Infelizmente (ou felizmente) na seu campo de pesquisa só você e seu orientador sabem avaliar quais são as áreas com mais oportunidade. Como sou do Direito não faço ideia do que poderia ser um trending topic na biologia.

      Sugiro que converse com seus professores e procure publicações de professores japoneses para avaliar o quais são as pesquisas que estão sendo conduzidas por aqui.

      Abraços

  4. Muito bom seu blog Eduardo! Venho lendo há alguns dias e ele está me esclarecendo várias dúvidas. Ainda tenho uma dúvida quanto a bolsa de mestrado e queria ver se eu entendi corretamente as informações que li.
    1 – Suponhamos que meu projeto de pesquisa seja aprovado, eu terei 2 anos para completá-lo no Japão e os 6 meses para aprender a língua japonesa estão inclusos nesses 2 anos, correto?
    2 – Caso eu seja aprovado no processo seletivo para fazer o mestrado, minha bolsa é prorrogada por mais 2 anos (a partir da data da aprovação) ou eu tenho que fazer meu mestrado durante os 2 anos de bolsa que ganhei para a pesquisa?
    Abraço,

    • Varia por área, universidade, professor. Tem local que já vai querer que você entre no curso sem aprender japonês. Tem alguns que vão fazer você ficar um ano no laboratório como pesquisador antes de poder tentar ingressar no mestrado. De qualquer forma, o período de estudo de japonês (que pode ser de mais de 6 meses e concomitantes com a pesquisa/mestrado/doutorado) está inclusa. De qualquer forma, é bem incomum alguém ficar mais de dois anos como pesquisador, afinal, são dois anos “perdidos” pois não se obtém titulação.
      2- Pesquisa é pesquisa, mestrado é mestrado. Assim que você é aprovado no mestrado você pede a desvinculação da bolsa de pesquisa e pede extensão para a do mestrado, que vai durar 2 anos.

      • Obrigado pela resposta! Outra dúvida, quando a pessoa se desvincula antes do fim dos dois anos para fazer o mestrado, ela tem que terminar a pesquisa que ela estava fazendo ou simplesmente abandona essa pesquisa e parte para o mestrado?

  5. Olá, Eduardo

    Muito bom o texto. Tenho uma dúvida, não achei no site do consulado e não sei se você saberia me informar: no caso de eu não conseguir entrar no doutorado, ou se eu não puder fazer o doutorado, existe alguma exigência para o fim do perído de pesquisa, como um relatório, um artigo publicado, uma defesa ou algo assim?
    Obrigado.

    • O MEXT não faz qualquer exigência desse gênero, e as universidades não costumam exigir nada de quem não passa. O que tenho visto de quem não é aprovado é uma saída rápida e indolor do programa ou sugestões do próprio orientador de que a pessoa desista ou mude de universidade quando não há perspectiva de ser aprovado no processo da instituição inicial.

  6. Oi, achei seu blog quando estava procurando informações sobre a bolsa do MEXT. Minha área é engenharia e estou ja para entregar o projeto de pesquisa no consulado de são paulo com proposito de pesquisar na área de robótica. O próprio consulado não parece pedir um projeto profundo, tanto que a metodologia é facultativa. Isso atrapalha na hora de ir pra segunda etapa (que seria a buscar de um orientador)? Você saberia se é possível ampliar o projeto depois da primeira fase? E como falou sobre o pessoal que não é aprovado e tem sugestão do orientador para mudar de universidade, a bolsa do MEXT permite que o aluno mude de universidade?

  7. Oi Eduardo. Tudo bem? Muito obrigada pelos artigos relacionados a bolsa de estudos no Japão. Graças a isso posso me preparar adequadamente pois pretendo ir em 2017/2018. Só queria agradecer mesmo! Aliás, solicitei a entrada no grupo do facebook.
    Abraços

  8. Oi Eduardo! Seu post foi um dos mais esclarecedores que achei sobre o assunto, obrigada! Estava com bastante dúvida a cerca dessa diferenciação que a Universidade de Tokyo faz entre pesquisa e mestrado.
    Tenho uma dúvida, não sei se você conseguirá responder: eu não vou prestar para a bolsa do MEXT, eu vou prestar para uma bolsa especifica para descendentes. Nessa bolsa, eu preciso sozinha negociar e prestar os exames com a universidade de minha escolha ( no caso, a Universidade de Tokyo). Como você conseguiu ingressar na Universidade como pesquisador? A bolsa MEXT mediou essa relação?

    • Olá Paula,

      No caso da bolsa do MEXT, a forma de ingresso na universidade como pesquisador é por recomendação diplomática. Dentro da Universidade em geral existe ou um processo seletivo específico para quem já é pesquisador, ou concorre-se no processo seletivo normal, mas já estando recomendado, e portanto as chances de ingresso são grandes. Para quem tenta “de fora”, como no caso de quem tem bolsas que dão apenas o auxílio financeiro, mas não o acesso por meio de recomendação, o ingresso na Todai é muito mais difícil. Os demais pesquisadores vem na grande maioria por meio de convênios firmados nas suas universidades de origem.

  9. Pingback: Mestrado no Japão | Nihon Go !·

  10. Olá Eduardo!

    sou estudante de direito da PUC e tenho muito interesse em “prestar” a bolsa MEXT na área de direito ambiental. Tenho um projeto de iniciação científica e vou fazer meu TCC nessa mesma área, com enfoque na questão da água. Dessa forma, gostaria que você me dissesse o que você sabe sobre direito ambiental no Japão, é matéria de direito público/privado? Você me recomendaria alguma leitura/autor que seria interessante para eu colocar no meu projeto? (você estudos autores japoneses de direito comercial?)
    Quanto ao nível de japones, devo ter conseguido o n5 (eu sei que não é utilizado para a bolsa MEXT), na época de fazer a prova.. e também gostaria de saber qual nível você entender ser necessário para prestar a prova.
    Uma última pergunta: como é a vida com os demais alunos do direito no Japão? Poderíamos falar de um “perfil” desses alunos?

    • Olá Luiza,

      Em primeiro lugar, para poupar tempo me adianto sobre a pergunta do nível de japonês. De todos as pós em Direito que conheço no Japão, sempre se exige no MÍNIMO o níve N1 do teste de proficiência. Alguns exigem certificado do próprio JLPT, outros certificado ou forma de mostrar proficiência equivalente.

      Ou seja, antes de se preocupar com Direito Ambiental, prova e etc, para que você não perca tempo, o ideal é tentar descobrir se existe algum programa de mestrado ou doutorado em direito que aceite alunos não fluentes em japonês. Existem alguns programas “coringas” de políticas públicas, estudos estrangeiros em que as vezes é possível encaixar o direito em um perfil mais amplo, mas não acho que exista um programa de pós em Direito no sentido técnico mesmo que não seja em japonês.

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