Human Empowerment – ou como o relativo sucesso do governo revoltou a população

Esfriadas um pouco as manifestações, expostas as opiniões em todos os espectros políticos, decidi escrever um texto um pouco mais técnico sobre como avalio os protestos que atingiram o país, e, especialmente, porque acho que muito dessa revolta foi direcionada sobre as pessoas erradas pelos motivos errados e sobre as pessoas certas pelos motivos errados.

Inglehart e Welzel são dois cientistas políticos que desenvolveram algo chamado “Human-Empowerment Model”, em tradução livre, Modelo de Empoderamento Humano, descrevendo a forma como o poder passa para as mãos do povo na transição entre a democracia meramente representativa e a democracia efetiva.

Os primeiros componentes desse modelo são os Recursos de Ação, basicamente os recursos materiais e cognitivos que permitem às pessoas governaram as próprias vidas e que levam ao segundo componente do modelo, os valores de Auto-Expressão, igualdade de gênero, tolerância à estrangeiros, homossexuais e etc, enfim, prioridades que só se tornam prioridades quando as condições materiais básicas estão supridas. A terceira fase é o fortalecimento das instituições democráticas, a legitimidade dos representantes.

O primeiro componente está ligado diretamente ao desenvolvimento econômico do país, afinal, superadas as barreiras materiais básicas as pessoas passam a ter exigências de ordem psicológica e política mais complexas.

Em 11 anos de governo do PT a evolução dos indicadores econômicos é claramente MUITO superior aos anos que antecederam. Não se trata de uma defesa do partido, é uma constatação importante inclusive para desenvolver a crítica contra o partido. Seguem os dados:

Exportações

brazil-exports

PIB per capita

brazil-gdp-per-capita

Dívida proporcional ao PIB

brazil-government-debt-to-gdp

Taxa de Juros

brazil-interest-rate

Desemprego

brazil-unemployment-rate

Salários

brazil-wages

Não precisa ser especialista para perceber que 2002 marca em todos os casos um claro momento de mudança. Se é por conta de méritos da política econômica do governo ou conjuntura da economia mundial, não sei, mas os números estão aí. Some-se a isso outros dados como os números recordes no combate à pobreza  e a ascensão de uma nova classe média e fica claro que a primeira parte do Empoderamento Humano vem avançando a passos largos no Brasil.

Faltou competência do governo, entretanto, em se antecipar e suprir a segunda e terceira fase. Satisfeita com a estabilidade econômica, a população volta suas atenções para a boa governança, medida pelo Banco Mundial em termos de , Responsividade, Accountability, Estabilidade Política, Regulação de Qualidade, Efetividade do Governo, Respeito ao estado de direito, combate à corrupção… Nesses pontos as estatísticas mostram que o Estado não evoluiu de forma decisiva:

Accountability

chart

Estabilidade Política

chart (1)

Eficiência do Governo

chart (2)

Qualidade Regulatoria

chart (3)

Estado de Direito

chart (4)

Controle da Corrupção

chart (5)

E não só não evoluiu como não educou politicamente a população para exigir isso. Consequência: as pessoas não sabem exatamente o que querem. Confundem indicadores de economia e de governança (ou nem sabem que existem), não identificam os méritos econômicos e criam deméritos para justificar os problemas de sempre: corrupção, ineficácia, falta de prioridades.

O Governo do PT deu poder às pessoas para exigir mais que a sobrevivência, mas ainda não soube se comprometer com esse algo a mais. Esse não foi o governo mais corrupto, mas colhe com uma pitada de injustiça e um pouco de merecimento um ódio de certa parcela da população. É injusto em parte, porque obviamente nem tudo de ruim é culpa do poder executivo, muito menos do governo federal, é injusto porque a classe média “clássica” é arrogante, não se educa politicamente, fala do que não sabe com a propriedade de um especialista (e ai do especialista de verdade que questionar as verdades da classe), , em termos atuais, só sabe compartilhar foto de facebook sem ler. Ao mesmo tempo é merecido pois ao dar condições materiais para a população, o governo não se atentou que, tendo o básico, o elementar, as pessoas percebem como era pouco, e vão querer não apenas o básico, mas o básico de qualidade não só em nível material, mas ideologicamente vão querer exercer seu poder de direito sobre o governo.

E na carona das exigências legítimas virão as exigências mais descerebradas da elite, da parcela alienada da classe média. Mas se exigem absurdos, se cobram sem saber de quem cobrar, é em grande parte culpa do governo que não é transparente, que nunca deixa claro os canais legítimos de cobrança e as competências de cada ente. Não educa a população em exercer a democracia efetiva e ainda por cima reforça a crise na própria representatividade com um partido de identidade esquizofrênica.

Minha conclusão nisso tudo é que o PT foi positivamente responsável por uma série de melhorias que levaram, junto com outros “n” fatores, a um descontentamento geral, a uma série de revoltas mal direcionadas mas que são muito claras em uma coisa (ainda que os manifestantes ainda não tenham percebido que o que querem pode ser expresso de forma clara): as coisas precisam mudar institucionalmente, precisam ser mais transparentes para que as pessoas possam descobrir o que querem e como querem. Ainda vivemos em uma cultura tão atrasada que parte da população acha que só o voto é instrumento legítimo de cobrança e outra parcela acha que só impeachment, renúncias, atos de autoridade do poder executivo esmagando parlamentares eleitos, enfim, que apenas destituindo pessoas a realidade poderia mudar. É o velho personalismo que predomina na mentalidade latino americana. O problema não são os governantes ou os partidos, não são necessariamente as leis e talvez nem mesmo a estrutura básica das instituições, mas o sistema de CONTROLE da população sobre eles, especialmente a falta de  cobrança organizada por meio da sociedade civil (séria, não certos grupos alienados e conservadores que existem por aí).

Propor um plebiscito para reforma política mostra uma tentativa de melhorar essa interação entre povo e governo, mas é crível que boas decisões sejam tomadas exatamente por essa população (e por essa população não falo dos pobres não, falo justamente da classe média semi-educada com curso superior em arrogância) que ainda não entendeu como o sistema funciona? Mudança a toque de caixa sem muita educação política? Se as pessoas acham que corrupção como crime hediondo pode resolver qualquer coisa, não seria surpresa se fossemos presentados com propostas absurdas como voto distrital, fim de partidos políticos, novo cheque em branco para financiamento privado das campanhas. Enfim, saíram todos ludibriados com uma falsa mudança.

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6 Respostas para “Human Empowerment – ou como o relativo sucesso do governo revoltou a população

  1. A conjuntura econômica internacional teve papel fundamental nesta história, o que poderia ter sido AINDA melhor para o país se não houvesse tanta corrupção e tanta roubalheira. QUALQUER governo que estivesse à frente do Brasil, teriam resultados muito parecidos, não é mérito nenhum. Navegar em ondas favoráveis é fácil para qualquer governante. Repito…teria sido muito melhor sem a corrupção.

    • Mas nesse caso faço algumas perguntas:

      1) Evidentemente que poderia ser melhor sem corrupção e etc, mas quais números, quais dados demonstram que qualquer governo à frente do Brasil teria resultados semelhantes? Eu ouço muito isso, e não duvido, mas eu preciso me pautar em provas. Além disso, qualquer governo teria feito as escolhas de distribuição de renda que reduziram a pobreza e aumentaram a classe média? Ademais, se navegar em ondas favoráveis é fácil para qualquer governante, porque o forte crescimento economico da década de 90 não se refletiu no Brasil, mas o abrandamento posterior a 2001 refletiu?

      Por fim, repito, ninguém tem dúvida de que sem corrupção poderia ser melhor, mas isso tem relação com o arumento do texto, no sentido de comparação dos indicadores? Afinal , a corrupção aumentou nesse período? Os maiores escandalos ainda pertencem à década de 90, o combate à corrupção não piorou, melhorou de forma medíocre.

      Ou seja, baseado nos dados que tenho em mãos, eu vejo bons resultados econômicos, uma leve piora na governança, mas não vejo um governo pior do que os outros.

      • Ressalto que as perguntas não são retóricas, acho que o questionamento de uma década quase ganha pode ter fundamento, gostaria que incorporar isso à discussão, mas me faltam dados convincentes.

  2. Coincidentemente o bull market no mercado de commodities teve início no começo da década de 2000. Com o câmbio ajustado na marra pelo mercado – o grande erro de FHC -, foi entregue ao governo Lula uma economia pronta para voar junto com a melhora nos termos de troca. No primeiro mandato Lula manteve o tripé econômico do governo FHC. Bolsa família representa menos do que 0,5% do PIB e já existia, embora em menor intensidade e com outro nome. Reformas política e tributária não foram feitas. A carga fiscal continuou asfixiante. Vivemos como uma cigarra que ganhou na loteria chinesa. De bom, reconheço, foi o maior acesso ao crédito para a compra da casa própria. Não é pouca coisa, mas foi só, como iniciativa de governo. Por outro lado, esse incentivo tem limites que NÃO foram respeitados no 3º. mandato do PT, qual seja, o nível a partir do qual a renda fica comprometida. Essa será reconhecida como a grande barbeiragem do governo petista em vigor e que terá sérias repercussões na tsunami que virá por ai (o efeito da dopagem da monetização acabou, aguarde). O que temos agora? Esgotamento do modelo macroeconômico focado no consumo (e NÃO no investimento – outro grande erro dos governos do PT), crescente déficit em conta corrente, endividamento das famílias e ameaça do retorno da reindexação (seria um desastre). Não sei qual é a tua idade, mas lembre-se que antes do Plano Real a inflação girava 2% ao mês; não há renda que possa ser direcionada ao consumo pela classe mais baixa, totalmente desprotegida em um quadro de hiperinflação. Em um contexto em que a sociedade não quer abrir mão do bem-estar proporcionado pelo crescimento pós-2002, “baixa” inflação e perspectiva de galgar patamares, a sociedade parte para o que você chamou de segunda fase. Nesse ponto eu, até onde eu consigo entender a situação, não vejo reparos na tua análise.
    Para finalizar o que você quis dizer com classe média clássica arrogante? Dê me provas e seja explícito nesse conceito, assim como você solicitou no primeiro comentário. Essa é a tese de Marilena Chauí. Pergunte a qualquer membro das classes mais baixas se ele não quer galgar de classe. É claro que sim. Donde eu poderia deduzir que a classe mais baixa inexoravelmente se tornaria arrogante ao pular de patamar na renda? Levado esse raciocínio ao extremo pode-se-ia deduzir que todo o ser humano é arrogante.

    • KB, obrigado pela explicação, foi bastante esclarecedora. Como eu disse, não sou economista, tenho alguma educação formal no tema mas não me atrevo a analisar muito. Tentei ter a cautela de colocar os méritos econômicos como relativos no próprio título do post pois certamente não se trata necessariamente apenas de mérito do PT, que deu continuidade a algumas boas politicas, não revolucionou em muitas necessárias, deu sua contribuição mas poderia ter feito mais.

      A questão de crédito que você levantou é interessante no contexto desse blog porque o Japão é um exemplo de como crédito é um incentivo limitado, lá esgotaram vários instrumentos, como a redução da taxa de juros, que já é 0%. Apesar de que lá o problema é o contrário do nosso, deflação, mas um ponto de encontro é esse foco no consumo.

      Na questão da arrogancia da classe média, não é uma tese da Marilena Chuaí, é defendida por ela mas já circula por aí faz muito tempo, especialmente em questões de discriminação racial e gênero. Mas antes de ser um conceito, é uma realidade que qualquer pessoa pode constatar. Quem interage diariamente com esse público sente na pele. Claro, tomei a cautela de reduzir um pouco a generalização e acrescentar “clássica” porque é um sentimento muito forte em uma geração específica da classe e em seus descendentes.

      Sendo bem explícito, e numa definição completamente livre minha, trata-se desse grupo de pessoas com um certo nível de educação formal mas extremamente ligadas a uma verticalização da sociedade, verticalização essa pautada especialmente na questão econômica e em um forte moralismo. O peculiar é que são pessoas que não são necessariamente bem posicionadas economicamente e que estão longe de ser um exemplo de moralidade, defendem ideais que claramente estão ali para garantir seu aprisionamento. Sem enxergar a própria situação, sem compreender a o que estrutura seu sistema de crenças e, especialmente, sem qualquer senso crítico, vomitam e revomitam as mesmas idéias, os mesmos preconceitos, mas sem fundamento algum. Claro, alguém poderia dizer que o mesmo pode ser dito do pessoal de esquerda ou do pessoal da elite, mas no primeiro caso ao menos você tem, via de regra, uma crença baseada, por exemplo, em um estudo teórico de transformação, enquanto os segundos tem plena consciência de que dinfudem valores e um sistema que garante seu status. A classe média arrogante não, ela defende e se apega às próprias correntes (não estou nem fazendo uma crítica ao capitalismo, antes que possa pressupor, mas sim a condições específicas de exploração) mas sem qualquer fundamentação lógica, é uma espécie de apego pelo apego, e isso se reflete (finalmente !) em um comportamento extremamente arrogante, que não permite discussão. Todas aquelas crenças inconscientemente impostas sobre elas se tornam dogmas, todo tipo de discussão desses dogmas é uma heresia. Essas pessoas não entendem nada da grande maioria dos assuntos que compartilham em emails apócrifos ou foto de facebook, mas não ousam admitir que não sabem. A situação dos protestos é bem característica, pergunte para a maioria porque critíca a Dilma, PEC 37 e etc. Não sabem, mas admitiem que não sabem? Nunca. E se você, um cara estudado, tenta discutir como estamos fazendo aqui, vai ser completamente rechaçado. É uma arrogância que pende para o autoritarismo, e o autoritarismo não se baseia em conhecimento, mas em argumentos que apelam para autoridade, afinal de contas.

      Bom, isso definitivamente não foi claro, então, resumindo, é um grupo que tem condições materiais e formais para pensar criticamente e não o faz, e não percebe isso mas se orgulha, e demonstra desprezo por quem o faz. Não qualifico as classes mais baixas dessa forma, que muitas vezes são assim, porque via de regra lhes faltam as condições para serem diferentes. E voltando ao seu ponto, final, considerando que as classes mais baixas, especialmente em um cenário de desigualdade e segregação, tendem a ser conservadoras, são potencialmente uma futura classe média arrogante, e aqui a segunda parte do human empowerement é tão importante, pois acredito que simplesmente ajudar as pessoas a pular de classe materialmente sem criar uma consciência política e democrática é propícia para a construção desse framework mental passivo, afinal, se as pessoas não tem o poder de transformação na mão por meio de instrumentos institucionalmente claros me parece que elas tendem a se acomodar com alguma situação favorável e deixam de se questionar. Me parece que nesse cenário virar um mero receptor de informação, sem qualquer senso crítico, é bastante propício.

  3. ERRATA: ao escrever 2% ao mês de inflação antes do Plano Real houve um lapso na minha memória. Troquem MÊS por DIA. Consultei o sítio do BACEN e a taxa de inflação DIÁRIA média (exata) em junho foi de 1,3% ao DIA.

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