Movimento Passe Livre no Brasil. E no Japão, como são os protestos?

datsugen

Com as recentes manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo, a expansão dos protestos contra problemas crônicos da sociedade brasileira, bem como contra a conhecida, porém muitas vezes ignorada truculência da PM, comecei a me perguntar sobre a ocorrência de situações semelhantes no Japão. Por coincidência quando estava lá também tive curiosidade semelhante, mas não me aprofundei muito. Revendo o que investiguei naquele tempo não achei muita coisa diferente. Assim, desde já peço que se alguém conhece melhor o tema contribua com comentários, links e etc, posto aqui, como sempre, como leigo interessado, não como especialista.

A impressão que fica ainda é a mesma, poucas manifestações populares, questões pontuais, ausência de continuidade, números pequenos. Para falar a verdade no feed do Partido Comunista no Facebook ( assino todos os partidos, é uma boa fonte de informação sobre as ideologias que permeiam a política japonesa) que vejo toda semana alguns movimentos menores, especialmente de classes específicas de trabalhadores, protestos contra energia nuclear e contra o TPP (Transpacific Partnership).

De qualquer forma, vou compartilhar aqui as manifestações mais enérgicas que encontrei, e depois vou tecer alguns comentários sobre isso, e, aproveitando a carona, sobre o que penso do que estamos vendo no Brasil

1) Revolta do Arroz (1918)

É, tive que voltar  quase cem anos no tempo para achar algum protesto bem inflamado. E esse foi o maior do Japão moderno, e também tem a ver com aumento em preço, mas em vez de um serviço essencial, trata-se do alimento essencial do Japonês, obviamente, o arroz.

De 1914 à 1918 o preço do arroz tinha ficado praticamente inalterado em torno dos 15 ienes, em 1918 subiu para 50 ienes. O custo de vida evidentemente subiu, os jornais fizeram um enorme alarde sobre a incapacidade do governo em conter a escalada dos preços, gerando um sentimento de insegurança que culminou com uma série de manifestações violentas em centenas de cidades e vilas japonesas entre o dia 11 e 20 de agosto daquele ano.

O governo reprimiu violentamente o movimento, com mais de 25 mil pessoas presas, aplicação de penas capitais, que mesmo assim não contiveram as revoltas. Tudo isso levou à queda do Primeiro Ministro e à formação do primeiro Gabinete Partidário do Japão, ou seja, Gabinete (órgão máximo do poder executivo) formado pelo partido com maioria no Parlamento. Até então ele era formado por uma elite política ligada ao Imperador externa ao sistema parlamentar.

2) Revolta Koza

Essa é mais recente, ocorreu em 20 de Dezembro de 1970. 25 anos depois da ocupação americana da ilha de Okinawa, 5 mil habitantes se rebelaram e entraram em confronto com 700 membros da Polícia Militar dos Estados Unidos.

Mais do que a indignação com a presença estrangeira, foi fruto da revolta contra a extraterritorialidade jurisdicional que impedia que americanos que cometiam crimes e abusavam da população japonesa fossem julgados pela justiça local.

Os japoneses destruiram mais de 75 carros, causaram incêndios, feriram 56 soldados americanos. Houveram ainda feridos entre os policiais de Okinawa e evidentemente entre os manifestantes, além de dezenas de presos.

O evento fomentou um forte sentimento anti-americano, ou melhor, anti-presença militar americana. O governo japonês adotou postura conciliadora, conseguiu acalmar ambos os lados. Do lado americano milhares de soldados pediram dispensa ou foram transferidos. Do lado japonês se tornou comum entre a população de Okinawa organizar atos mais pacíficos contra a Base dos fuzileiros navais.

1990) Inncidente de Airin

Esse sim é bem recente. Em 1990 foram 5 noites de conflito entre 2500 policiais e 1500 manifestantes, que arremessaram pedras na polícia, queimara prédios, destroiram patrimônio público. Foram mais de 200 feridos e 50 e poucos presos.

O distrito de Airin em Osaka é conhecido pela criminalidade, pela presença maciça da Yakuza, bem como por uma população marginalizada de trabalhadores braçais e alcoólatras. Os constantes abusos da polícia corrupta da região culminaram com essa explosão da população após a prisão de um homem motivada por um discurso contra o imperador.

2011 – ? Protestos anti-energia nuclear

Protestos contra a geração de energia por meio das usinas nucleares sempre foram uma constante no Japão, mas desde o incidente em Fukushima não só se tornaram muito comuns como atingiram proporções enormes. Em 16 de julho estima-se que quase 200 mil pessoas se reuniram em Tokyo para protestar. Esses eventos não registraram ocorrências violentas, no entanto. Também não tiveram muito resultado.

Enfim, no Japão, como aqui, se protestou contra o aumento de preços, contra o abuso de poder da polícia, e diferentemente daqui, contra uma presença estrangeira que muitas vezes parece violar a soberania da nação, bem como contra a geração de energia nuclear que já fez o país sofrer muito.

No final das contas, minha impressão é que o efeito dos protestos não foi grande. Na revolta do arroz em 1918 provocou a queda do primeiro ministro, mas em 2 anos a situação não só foi revertida como piorou, com uma onda de autoritarismo que levou ao desastre da participação japonesa na Segunda Guerra

Koza fomentou muita discussão, mas, 43 anos depois a base americana continua em Okinawa.

O incidente de Airin não mudou a realidade de Airin, e os movimentos anti-nuke não impediram o religamento das usinas nucleares do Japão.

______ CUIDADO, A PARTIR DE AGORA O TERRITÓRIO SE TORNA EMINENTEMENTE POLÍTICO _________

Ou seja, a sensação que fica é que protestos e manifestações, violentos ou não, tem um caráter simbólico importantíssimo na democracia, provocam algum tipo de reação do poder público a curto prazo, aproximam as pessoas, passam uma mensagem de indignação da população, mas seus efeitos não duram sem que os ideais pelos quais se luta sejam internalizados pela sociedade civil e exigidos e cobrados dentro das regras do jogo político democrático.

Temo que os protestos no Brasil vão ter o mesmo fim, mas ainda assim estão servindo para balançar as pessoas, para mostrar que manifestante não é vagabundo, que violar a propriedade (privada e patrimônio público) não é nada perto da agressão contra vidas humanas, perto dos abusos cometidos sistematicamente pela PM, e por tabela ainda mostraram para muita gente que o Jabor é um babaca, que o Datena é um oportunista, e que a grande mídia não tem honestidade, não tem caráter.

No final pode surgir uma nova sociedade civil organizada que tente internalizar um pouco das lutas que ocorreram nesses dias de revolta e criar uma série de critérios, de princípios de ação condizentes com a luta contra a práticas corruptas (e não contra a corrupção como termo geral e indefinido) e contra os abusos do Estado. Mas infelizmente creio que a grande maioria vai aceitar as desculpas do Jabor e xingar o pessoal da USP de maconheiros filhinhos de papai na próxima greve que realizarem por lá.

Acho isso porque já sinto que os ideais do movimento estão sendo apropriados, e não pela “direita golpista” como muitos rotulam, mas por gente burra que não entende nada de política (e que tende a ser a tal direita golpista haha, mas também transita na esquerda deslumbrada). O que começou como ideiais difusos, e depois uma disputa com o governo de São Paulo está tendo gradualmente sua pauta modificada contra o governo federal, especialmente com a repentina mudança da postura da imprensa, o que não seria grande problema se apenas soubessem porque. O que começou como um movimento da esquerda logo será transformado em um movimento anti-Dilma, sem resolver os problemas antigos e novos. E ela pode de fato ter muita culpa da situação atual do país, mas não é a única responsável pelo que aflige a população.

Aqui temos o risco de lançar no jogo político pessoas pseudo-politizadas, aquelas pessoas que não compreendem bem a distribuição de competências entre município, governo estadual e federal, congresso, assembléias e câmaras de vereadores. Quem aumenta o preço da passagem? Quem licita e supervisiona as obras da copa? Quem é responsável pela polícia militar? Aquele que não sabe isso, que acha que são detalhes, burocracia, é aquele que geralmente culpa o governo federal, PT, Dilma, por tudo, é o mesmo povo que chama os outros de massa de manobra, e não percebe que é a verdadeira massa manobrável por não compreender as raízes da corrupção, da má gestão de recursos que está mais na falta de accountability horizontal e vertical do Estado do que na escolha do eleitor. Enfim, quem vê a política de forma superficial e resume sua crítica ao argumento genérico da corrupção e PEC 37 (que são pautas importantes de debate) mas sem sequer procurar compreender os fenômenos que critica, esses vão lutar para acabar com algo ruim e colocar algo ainda pior no lugar.

E pior, a própria crítica à imprensa está sendo esvaziada, afinal, tem gente que insiste em achar que a Globo é partidária do governo federal e que essa manifestação é uma parceria entre a emissora e o PT, tem gente que acha que qualquer crítica ao PT é coisa de golpista (as vezes é, as vezes não é). Enfim, a crítica se polariza e se torna inócua.

E esse texto não é uma defesa do PT ou de qualquer partido político, até porque este, como todos os outros partidos, merecem sim muita crítica, precisam mudar completamente suas práticas, o nível de interferência do governo federal nos outros poderes é inadmissível e anti-democrático, além da qualidade da atuação legítima ser medíocre, e assim também tem sido as ações de todos os partidos do espectro político, da esquerda à direita. Mas ainda assim mantenho um desabafo,  a manifestação de alguém que quer que cada responsável seja responsabilizado na devida medida. E é por isso que passado o calor dos primeiros protestos creio que é essencial criar uma pauta para esse movimento, sob o risco de que muita gente ali acabe lutando contra algo que nem queria lutar.

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