Ficção Científica Japonesa – Contrastes entre Hoshi Shinnichi e obras ocidentais

Capa de Bokko-chan

Capa de Bokko-chan

Terminei de ler recentemente a coletânea de contos Bokko-chan (ボッコちゃん) de 1971 do escritor japonês Hoshi Shinnichi. Meu primeiro contato com o autor ocorreu nas aulas de japonês da Soka Daigaku por meio do curta de animação adaptação da obra おーい でてこーい (ooidetekooi), uma história bem curta e simpática  com um ambiente misterioso e um tom de crítica ambiental realizado em poucas palavras. Segue link do vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=hgWOHzp_T-E

Apesar de algum interesse em outros contos do autor, que conheci também por meio de vídeos e curtas, só nesse ano tive contato com sua obra escrita. Devo confessar que o primeiro sentimento foi de decepção. Decepção pois a qualidade dos contos oscila muito, alguns deles são entediantes, outros são “bobos”, outros tem finais ridículos, e apenas alguns poucos conseguem realmente repetir a sensação que  おーい でてこーい havia me passado. Porém, acho que o sentimento pós leitura melhora um pouco a qualidade da coletânea em si, especialmente quando você observa que existe um fio condutor de tudo, uma espécie de repetição de temas e formas que se combina e dá significado até aos contos mais simples.

A propósito, essa coletânea de reúne histórias de ficção científica, mistério e algumas de fantasia integrada a um cenário atual ou futurista. Alguns cenários são bastante recorrentes: 1) missões espaciais em visita a outros planetas com vida inteligente e geralmente semelhantes à Terra e aos humanos; 2) Chegada de extraterrestres ou objetos alienígenas à Terra, e a respectiva reação ou interação com os humanos; 3) assaltantes invadindo casas, cometendo crimes, com desfechos bizarros de captura ou confissão; 4) futuros meio utópicos meio distópicos.

Além disso, percebo algumas críticas também recorrentes ao capitalismo, consumismo, degradação do meio ambiente, guerra, violência e etc.

Talvez no futuro eu faça uma lista dos contos que gostei e dos que achei ruins, e quem sabe aborde alguns desses temas em detalhe, mas hoje opto por outro tema, o paralelo da ficção científica de Hoshi com dois filmes inspirados em livros de ficçao científica ocidentais: Minority Report e Children of Man. Vamos aos paralelos

1) Minority Report x 生活維持省 (tradução livre: Ministério de Preservação da Vida)

Minority Report é um filme baseado na obra homônimo do Phillip K. Dick que mostra um futuro próximo no qual uma divisão da polícia chamada Pré-Crime conseguiu acabar com os assassinatos punindo os “criminosos” antes que cometam crimes, por meio de previsões de três paranormais chamados precogs. Em algum momento da trama o chefe da equipe, John Anderson, recebe a previsão de um homicídio que ele mesmo irá cometer, o que leva a sua tentativa de provar ser inocente, de evitar cometar o crime, e eventualmente se torna uma jornada que mostra que esse sistema é imperfeito. O questionamento aqui não é só a possibilidade de ser armar uma falsa previsão de homicídio, mas no próprio fato absurdo de se prender alguém que efetivamente não cometeu crime algum. Me parece que é um história que questiona o poder do Estado e da polícia sobre as pessoas, e talvez celebre de alguma forma a liberdade, acima que uma ordem social perfeita.

Em 生活維持省 também nos deparamos com um futuro próximo utópico, nesse caso ainda mais impressionante, sem crimes, com um meio ambiente preservado, vidas tranquilas e etc… O conto segue o dia de trabalho de 3 funcionários do tal Ministério de Preservação da Vida, que recebem alguns cartões com nomes e endereços e saem para a missão de campo diária. Entre conversas sobre sonhos para o futuro que ilustram essa sociedade perfeita, é revelado que o que está por trás dessa paz aparante é um sistema no qual o Estado seleciona aleatoriamente pessoas que são mortas numa espécie de controle da população mundial. A missão do dia ilustra como eles friamente matam uma criança que tinha ido colher morangos, e argumentam com a mãe da menina sobre a necessidade do ato e como ela deveria saber e até sentir agradecida por isso. A virada da história é que um dos cartões continha o nome de um dos três agentes, que, sabendo desde o início do fato, e aproveitando o belo cenário em que se encontra, pede para ser morto ali, perto de um rio.

Nos dois casos temos utopias que se revelam distopias, mas o mais interessante é que em Minority Report existe uma luta pela sobrevivência e pela transformação do sistema, enquanto que 生活維持省 existe a resignação e aceitação. Ambos são críticas, mas em Minority a crítica parece ser mais ao sistema, enquanto em 生活維持省 tenho a impressão que a crítica se dá a partir da crítica a apatia e frieza das pessoas, que em nome de um interesse falsamente não egoísta como ordem social sacrificam inocentes para ter uma vida perfeita. Talvez essas diferentes perspectivas venham, por um lado, da eterna luta simbólica dos Norte-Americanos pelo que chamam de liberdade, e a questão de não se render nunca ao governo, e, por outro lado, ao caráter japonês de resignação, de não levantar sua voz diante de injustiças e diante das imposições as vezes absurdas em nome da ordem social.

2) Children of Men x 最後の地球人 ( tradução livre: O(s) último(s) Terráqueo(s)) (pdf aqui)

Capa da edição de Taiwan de 最後の地球人

Capa da edição de Taiwan de 最後の地球人

Children of Men retrata um mundo em que os seres humanos são atingidos por algum tipo infertilidade, se não me engano de origem não explicada, que após algumas décadas leva a um colapso da sociedade diante de sua iminente extinção. Surge entretanto, uma mulher grávida sabe-se lá de onde, e um funcionário britânico faz de tudo para salvar essa mulher e especialmente a criança, numa tentativa, quem sabe, de impedir o fim humanidade (faz algum tempo que vi o filme, posso estar equivocado sobre a visão, mas se creio que não pode estar muito longe a ponto de anular o paralelo).

最後の地球人 também mostra um futuro meio distópico, em que a população cresceu muito, animais e plantas foram extintos, a terra se torna uma grande metrópole e repentinamente os seres humanos são atingidos por uma infertilidade não explicada. Entretanto, nessa obra, ao contrário de Children of Men, os seres humanos acabam aceitando isso como inevitável, e vendo toda a riqueza produzida por todas as gerações, e sabendo que não vai haver ninguém para usufruir no futuro, decidem parar de trabalhar, todos se tornam uma classe de nobreza que vê os humanos do passado como escravos, e que tem obrigação de aproveitar a vida como últimos humanos. Eventualmente a humanidade é reduzida a duas pessoas que voltam a um estado de Adão e Eva, sem vergonha de seus corpos, em uma relação de amor próxima da perfeição. Depois de algum tempo a mulher, grávida, morre no parto, o homem se suicida, essa criança é nutrida por uma máquina até o dia em que o equipamento quebra e ela sai nesse mundo vazio.

Aqui a diferença é parecida com a do primeiro caso. Na obra ocidental há uma luta pela mudança, enquanto na obra japonesa temos a resignação. Na obra ocidental temos o homem Hobbesiano, que com a quebra dos governos se torna violento, um predador do próprio homem, e na obra japonesa algo mais próximo de um bom selvagem, o retorno do homem à realidade pré-pecado original e etc.

Enfim, não tirei maiores conclusões disso tudo, mas acho que rendeu boas reflexões e com o tempo pode render algo mais.

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2 Respostas para “Ficção Científica Japonesa – Contrastes entre Hoshi Shinnichi e obras ocidentais

  1. “Além disso, percebo algumas críticas também recorrentes ao capitalismo, consumismo, degradação do meio ambiente, guerra, violência e etc.”

    Não estou certo sobre crítica ao consumismo, mas isso também pode ser visto em vários desenhos do estúdio Ghibli.

    Fico pensando se os animes/mangas (alguns deles pelo menos) não seriam uma forma de comunicar ideologias que eles reprimem em outras formas? Se a arte não seria uma forma de engajamento político?

    • Não sei se por conta de tatemae e honne, mas o debate abertamente político no Japão é muito difícil de ser tratado com os jovens, então a industria cultural acaba sendo uma arena política extremamente eficiente no Japão.

      Acredito que mesmo as obras sem conteúdo político estão deliberadamente nesse jogo, pois a maioria dos animes e mangas são absolutamente alienantes, com discursos vazios e superficiais (sempre em torna de amizade, superação e etc) que contribuem para a despolitização e consequente fragilidade ideológica dos jovens.

      A ideia de que estúdios como Ghibli atuam sutilmente com conteúdos políticos dentro de obras geniais não passa desapercebida pelos políticos. Miyazaki foi recentemente chamado de traidor da pátria por sua visão anti-militarista e pacifista, a qual vários diretores expressam não só nos animes, como em artigos explícitos na defesa desses ideais. Pretendo escrever sobre isso em breve, após assistir Kaze Tachinu

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