Copa do Mundo no Brasil vista do Japão

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Não sou exatamente um entusiasta da ideia da Copa do Mundo, e certamente não fecho meus olhos para os abusos que tem ocorrido em torno do evento (e aqui ressalto especialmente a prisão ilegal do meu amigo Fábio Hideki Harano, cujos detalhes podem ser vistos nesse site http://liberdadeparahideki.org/), mas o fato é que o evento está ocorrendo, tem lá seus atrativos, e visto de outro país acaba sendo uma experiência bem diferente.

Eu também estava no Japão na Copa de 2010, então achei que não teria nada de novo, mas dois fatores diferenciam bastante a Copa de 2010 e de 2014. Em primeiro lugar, em 2010 morava em Hachioji, subúrbio de Tokyo, e não tive muito contato com o “mundo exterior”. Além disso, esse ano a Copa é no Brasil, e por ser meu país de origem, acabo observando muito mais o que se fala do evento para além do que ocorre no campo.

Pois bem, acredito que posso analisar a Copa vista do Japão em três perspectivas: 1) o tratamento dado pela mídia; 2) a presença da Copa nos espaços públicos, comércio e a reação do público em geral; 3) a Copa como ela é vista ou vivida pelas pessoas próximas a mim. No final tudo isso é pura especulação pessoal, é a forma como eu tenho seletivamente coletado as informações, mas esse blog nunca se propôs a ter muita objetividade mesmo.

Esse momento me parece bom para escrever sobre o assunto porque 80% da competição já passou (estou escrevendo antes das semifinais), então já tive a noção do impacto por aqui, mas ainda não acabou, então não vou ser influenciado por uma eventual repercussão grande da final na hora de escrever.

1) O tratamento dado pela mídia

Da TV posso falar apenas do meu contato muito aleatório e eventual, e na verdade vou começar por ela, pois, por mais raro que seja meu contato com esse veículo, parece que toda vez que ligo a TV ou vejo programa em algum lugar, estão falando da Copa. Antes do início do evento, em abril e maio, deve ter assistido TV umas 4 ou 5 vezes, e em três ocasiões, em semanas diferentes, estavam transmitindo programas especiais sobre o Brasil. Não eram especificamente sobre a Copa, mas parte do efeito da Copa sobre a mídia é esse “hype” em torno do país organizador. Claro que eram programas padrão TV japonesa: exagerados, cafonas, barulhentos e estereotipados.

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Além desses programas especiais, temos, evidentemente, a transmissão dos jogos. Todas as partidas são transmitidas, cada uma em um canal diferente, não há competição pelo mesmo jogo. Aqui também tem o tradicional pré-jogo, cada canal com seu time de comentaristas (gosto mais da Fuji Terebi, e suas combinações bizarras como o lendário John Kabira e Tulio Tanaka, o brasileiro naturalizado japonês que quebrou o braço do Drogba em 2010). O interessante é que nos intervalos sao feitos comentários totalmente genéricos e amadores sobre o jogo por uns 2 minutos e o resto do tempo aproveitam para ocupar com noticiário. Além da transmissão dos jogos, alguns canais tem dedicado cerca de mais uma hora por dia com especiais sobre a Copa.

No rádio ouço apenas noticiários, mas as noticias sobre a copa estão invariavelmente sempre lá? resultados, quem jogou com quem, como foi, análise de especialistas. Nas versões digitais também temos a cobertura padrão, com sessões especiais só sobre a Copa, sempre pontuadas com matérias bizarras como por exemplo pesquisas sobre qual é o cabelo de jogador preferido pelo público (detalhe para as fotos nada inocentes da reportagem http://www.asahi.com/articles/photo/AS20140704001510.html)

Bolinhas vermelhas representam quantos votos o cabelo do jogador recebeu

 2) A presença da Copa nos espaços públicos, comércio e a reação do público em geral

Me surpreendi com a repercussão da Copa pelas ruas de Tokyo. Ou melhor, quando falo pelas ruas de Tokyo, é melhor deixar claro que são as ruas de Shibuya, que frequento diariamente, e acho possível que o bairro seja um centro de celebração do evento que não se repete em outras regiões da cidade. Mesmo assim, a questão é que especialmente na fase de grupos, não importa por onde você andasse lá, veria referências à copa nas lojas, nos outdoors, nos telões eletrônicos, enfim, em todo o espaço de marketing visual. Claro que o carro chefe dessa exposição toda era a seleção japonesa. Todo dia na frente da 109 montavam um pequeno palco e faziam algum evento relacionado à copa, geralmente promovendo também o uniforme nipônico. Modelos vestidas com o uniforme, celebridades, shows musicais, distribuição de bebidas e cafés com os jogadores da seleção japonesa estampados no produto.

109

Um dos principais clubes da cidade, o Ageha, promoveu uma festa com o tema pré-jogo da seleção japonesa, quem fosse com camisa de time de futebol entrava de graça (um bom negócio, considerando que a entrada no local custa uns 80 reais). Acredito que mais da metade das pessoas foi uniformizada, e dessa metade, a maioria esmagadora estava com camisa da seleção japonesa.

No dia do primeiro jogo do Japão, Shibuya amanheceu completamente azul, praticamente todas as pessoas circulando na região estavam uniformizadas. O bairro tem bares muito populares e é um dos destinos preferidos para assistir jogos com os amigos. Os japoneses realmente ocuparam a região desde horas antes da partida, cheios de otimismo. A confiança no time era impressionante, uma confiança baseada, diga-se de passagem, em um monte de discurso de auto-ajuda sobre realizar seus sonhos, milagres, vitórias, acreditar em si mesmo. Enquanto o Japão durou na competição durou também esse discurso, e enquanto havia esperanças de classificação, mesmo com as derrotas, a seleção japonesa na Copa esteve em alta mesmo entre aqueles que pouco ou quase nada entendem de futebol.

O problema é que futebol não é ganho com discurso de auto-ajuda ou nacionalista, e o Japão foi massacrado em campo, e com isso muito da empolgação com a competição vista nas ruas sumiu. Japoneses com uniforme não foram mais vistos e boa parte dos outdoors com a seleção foram retirados. Também foram dadas muitas desculpas: 1) o time japonês é muito baixo ou fraco (mas dois times menores passaram para a segunda fase bem, México e Chile; 2) os japoneses são muito honestos em campo (mas alguns comentaristas disseram que confundem falta de vontade com honestidade); 3) o jeito japonês de jogar não pode ser mudado, e infelizmente não foi bem sucedido dessa vez (apelo à questões irrelevantes de identidade).

Hachiko e Scramble Crossing em Shibuya após a derrota do Japão

Mesmo assim, se a seleção não se deu bem, o Japão ainda foi sensação na primeira fase com seus torcedores limpando o estádio após a derrota. Aqui ressalto três coisas: 1) Vários amigos japoneses se impressionaram e disseram que nem por aqui fazem isso no estádio; 2) Podem ter feito isso por lá, mas eu vi a sujeira absurda nas ruas por aqui antes e depois dos jogos, e não tinha ninguém se voluntariando para limpar; 3) já dei também minha opinião pessoal sobre o caso nas redes sociais, o gesto pode ser bonito e com certeza foi na melhor das intenções, mas me questiono se no fundo ele não tem algo de negativo, afinal de contas, estão pagando uma valor absurdo para utilizar um espaço PRIVADO, valor no qual está inclusa a limpeza do estádio, e valor esse que vai para os bolsas de uma organização corrupta como a FIFA, e ainda fazem a limpeza para os caras mas não fazem o mesmo nos próprios espaços PÚBLICOS? Não sei, para mim fica uma sensação de que por mais bonito que tenha sido, existe uma crítica a ser feita não a essas pessoas ou ao ato em si, mas ao contexto em que foi realizado.

Mas voltando à Copa, na segunda fase os dias de jogo mostraram um público bem diferente, nada daquelas ondas de japoneses vestidos de azul na rua, a presença dos estrangeiros ficou mais acentuada. Interessante que uma presença que se vê muito é a de franceses, apesar de que não acredito que haja tantos imigrantes de lá por aqui. Outro detalhe interessante é que a Seleção Brasileira já não é tão popular, vi muito pouca gente usando a camisa do time ou dizendo que ia torcer pelo Brasil no início, acredito que vi mais japoneses com uniforme de outras seleções, mas com o decorrer da competição e com a derrota do Japão parece que a situação melhorou um pouco para o nosso lado. Entretanto, independente da pouca popularidade da seleção brasileira me surpreendi com a popularidade do Neymar, todo mundo conhece, todo mundo acha o máximo, acredita que é o jogador mais “cool”, enfim, ele e seus patrocinadores tem feito um trabalho de marketing melhor que a CBF.

Outro ponto desse “hype” com a copa e com o Brasil é que tivemos também uma onda de produtos “brasileiros” nas lojas, que vão desde café e guaraná até sanduíches malucos de moqueca e churrasco.

Dois sanduíches nesse pacote, um de moqueca, um de churrasco... bizarro

Dois sanduíches nesse pacote, um de moqueca, um de churrasco… bizarro

 

3) A Copa como eu vi

Por último, temos a Copa como eu tenho visto e acompanhado com meus amigos. A empolgação obviamente não é igual, depende muito da nacionalidade inclusive, eu assisto os jogos algumas vezes realmente interessado, outras quase por obrigação, mas não me sinto tão atraído pela seleção brasileira a ponto de ficar nervoso. Os Argelinos, por outro lado, foram de longe os que mais se empolgaram, desde o início a animação foi grande, e eu estive com eles na partida contra a Rússia que resultou na primeira classificação do país para as oitavas de final, e se eu tenho muitas críticas a fazer contra a Copa, também tenho que admitir que ela proporciona esses momentos de uma felicidade tão simples para as pessoas que fica possível dizer que o evento não tem lá seus méritos.

Os japoneses que conheço melhor em geral acompanham de longe ou não acompanham as outras seleções, mas o que realmente gostam de futebol vez ou outra vão aos bares assistir as partidas. É importante lembrar que os jogos aqui ocorrem geralmente às 1h e às 5h da manhã, então exige um esforço muito grande para querer acompanhar, então, no momento que você vê gente de vários países enchendo o lounge do dormitório, as ruas da cidade e os bares que abrem à essa hora, você sabe que realmente valorizam muito a Copa por aqui também.

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É bom considerar também que aqui no Japão os trens param de funcionar lá pela meia noite e voltam depois das 5h, então decidir assistir um jogo fora de casa envolve o comprometimento de passar a madrugada inteiro acordado, não vou dizer que meus amigos tem tido todo esse comprometimento, e eu também não fiz isso muitas vezes, mas acontece, e todas as vezes que saí para ver algum jogo me deparei com bares completamente lotados.

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Enfim, em linhas muito genéricas, essa tem sido a impressão que tive da Copa por aqui, uma surpresa pela repercussão e surpresa também pela visão positiva que tem sido passada do evento, considerando que uma ou duas semanas antes do início circulou muito pela internet uma “cartilha” do governo japonês analisando o risco de cada cidade sede de jogos do Japão e alertando os turistas japoneses a terem o máximo de cautela.

Mas nessas horas vejo também o valor das redes sociais. De alguma forma ela consegue contrabalancear as informações que chegam até nós. Se durante o último ano fomos bombardeados pela mídia com críticas à organização, e vimos gente defendendo nos veículos alternativos, agora vemos a mídia ocultar os abusos e violência policial fora dos estádios, e se não fosse por amigos divulgando no facebook, não saberia de muito do que tem ocorrido extra-campo.

E com isso percebo a ambiguidade da Copa, um evento que eu quero odiar por saber o quão sujo é, mas para as pessoas alheias à esses problemas (me refiro aos estrangeiros por aqui) é uma grande festa, e é difícil não ser contagiado por uma alegria tão simples quanto à que tenho visto à minha volta. Não é meu papel culpar ou criticar quem aproveita o evento, o problema é se deixar cegar pela festa. A Copa pode ser tanto “pão e circo”, pura distração para o povo (e por povo não falo dos pobres que sofrem com seus problemas diariamente mesmo durante a copa, e sim da classe média e alta, que depois de chorar tanto com “imagina na Copa”, e depois de xingar a Presidente de forma absolutamente escrota agora fica maravilhada com tudo que vê), ou pode ser uma forma de chamar a atenção para os problemas sociais do país, é uma questão de perspectiva, é possível conciliar a diversão e a crítica. Não acredito que o caminho do meio e a conciliação seja o ideal, mas parece ser o máximo que as pessoas estão dispostas a se comprometer.

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