Discussão sobre a primeira metade de “Em Louvor da Sombra” (Junichiro Tanizaki) – 1ª Reunião do Módulo III do Núcleo Kojima de Estudos Japoneses

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Raramente consigo me comprometer com os objetivos que defino para o blog. Entre séries inacabadas e promessas não cumpridas, inicio uma nova tentativa, que é a ideia de reunir as linhas gerais dos encontros do nosso Núcleo de Estudos Kojima – História e Sociedade Japonesa. Não temos feito ata, no máximo tomo poucas notas, então o que vou colocar aqui são em geral tópicos trabalhados, o que lembro de cabeça do que foi dito e muito de minhas opiniões pessoais sobre os temas.

Pois bem, no dia 7 de Agosto realizamos a primeira reunião do terceiro módulo do Núcleo Kojima. Enquanto no primeiro módulo trabalhamos primordialmente aspectos da sociedade da Japonesa da restauração Meiji à 2ª Guerra Mundial, e no segundo questões políticas do período de Guerra e Pós-Guerra, neste terceiro módulo o foco será a Cultura japonesa especialmente nos períodos já estudos, tema que será trabalhado com 4 encontros com a leitura do livro Em Louvor da Sombra de Junichi Tanizaki nos dois primeiros e a discussão sobre alguns filmes nas duas últimas reuniões.

Iniciou-se a reunião com uma breve contextualização histórica do Yuri Sócrates e passamos diretamente para as considerações mais evidentes do livro, quais sejam, as oposições entre Ocidente e Oriente apresentada por meio de exemplos cotidianos e estéticos do autor.

Nesse sentido, por meio de fotos e do próprio conhecimento dos participantes observamos as formas clássicas e não tão clássicas de diversos objetos que compõe os ambientes internos japoneses, como shoji, andon, denki hibachi, chouchin, zashiki, tonkonoma e etc. O ponto em comum entre a maioria desses itens é que são todos elementos essenciais na composição da iluminação dos ambientes, e a questão da iluminação (ou falta dela) é o ponto central da obra, onde o “louvor da sombra” se trata de um suposto aspecto da natureza ou dos hábitos japoneses. O autor valoriza portanto ambientes com alguma penumbra, a forma como a luz é projetada através do shoji , por meio de luminárias tradicionais que filtram a luz por meio do papel e etc.

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O ponto mais interessante (para mim) é a questão da oposição entre os banheiros japoneses (kawaya) e os banheiros ocidentais. Enquanto os nossos são brilhantes, claros, com vasos de porcelana, Tanizaki valoriza ambientes de madeira, distantes dos aposentos da casa, locais mais relaxantes e na verdade em sua palavra prazerosos, na medida em que ele mesmo fala que é o melhor lugar para se experimentar um êxtase fisiológico, e qualifica o ambiente como o de maior valor estético nas construções japonesas. O tema é claramente um tabu no ocidente, mas para os japoneses de fato parecem dar uma atenção maior ao aposento, inclusive na arte, com pinturas de artistas famosos, como Hokusai, com uma visão bem humorada da temática . Aqui falamos também dos banheiros contemporâneos japoneses, com sons de pássaros e água corrente, com os vasos sanitários ultra-modernos aquecidos e cheios de botões…

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Tanizaki fala também sobre como o Japão, ainda que em ritmo diferente, poderia ter chego aos mesmos conhecimentos dos ocidentais e criado invenções semelhantes mas mais adaptadas às características dos japoneses. Cita especialmente a caneta, tinta e papel. Falamos então da questão da Ciência colocada pelo ocidente como Universal contra essa concepção não exclusiva do Tanizaki de uma ciência local. O autor fala inclusive sobre desenvolver uma física, química própria, com princípios próprios. Em um primeiro momento parece absurdo, afinal, a ciência nos é passada como absoluta, como algo que “é” e não como algo relativo, mas basta pensar em como as próprias teorias científicas evoluem com o tempo para observar que o pensamento do Tanizaki não é desprovido de lógica (ainda que afirme a ignorância sobre o tema).

Nisso entramos em uma característica do texto que, por sua natureza de ensaio (por falta de classificação melhor, como disse a Marília Kubota), e diferente dos textos anteriores comprometidos com o rigor científico e acadêmico, é algo mais “sem compromisso”, o que acaba sendo excelente para sairmos um pouco das discussões mais rígidas sobre certo e errado, ser ou não ser, para algo mais leve, algo que não se propõe a buscar a verdade, mas sim uma verdade pessoal, ou talvez nem verdade, mas puras considerações, quase como uma conversa, como mencionou o Yuri.

Outro tema que me chamou atenção (e que anotei) foi sobre identidade. Enquanto o Yuri Sócrates comentou como o texto fala sobre a identidade japonesa, a Marília entende que na verdade é um texto sobre alteridade, pois não fala só de si mesmo, o autor não buscar se encontrar ali, mas busca encontrar as características do outro, tanto um outro ao qual não pertence (ocidental) como o outro como um povo em geral do qual faz parte (o japonês) [essa é a conclusão que tirei da minha cabeça do debate, os termos e as idéias utilizadas podem ter sido diferentes].

Concluímos o encontro com os temas de arquitetura e culinária abordados no livro, e finalmente com duas questões: 1) se os japoneses gostam da falta de luz e por isso seus ambientes são assim, e seu jeito reflete muito isso, ou se por questões de hábitos e até de recursos naturais eles aos poucos não se condicionaram a gostar e apreciar a sombra.

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