Senso de Responsabilidade do Japonês

fukushima

Uma coisa que me fascina ao acompanhar os noticiários japoneses é o senso de responsabilidade do poder público japonês. Não digo isso no sentido de “ser responsável” como atuar corretamente, exercer devidamente as competências e etc, digo no sentido de se responsabilizar pelos erros, e declarar isso publicamente.

Não sei se foi sempre assim, não sei se é só uma impressão e se essa exposição é politicamente calculada, mas é algo interessante. Exemplificando o que quero dizer, algum dia desses saiu uma reportagem sobre dois adolescentes que se suicidaram em Osaka depois de terem se sentido humilhados por castigos físicos no clube de basquete. Nesse final de semana li outra reportagem sobre o tema, relatando como o prefeito de Osaka (Touru Hashimoto, um político que eu não gosto nem um pouco, diga-se de passagem) foi na casa dos pais das vítimas e declarou que, se o fato ocorreu por conta de atos de um funcionário público, e responsabilidade é da administração pública, incluindo dele, como prefeito.

Esse é o caso mais recente que lembrei, mas é algo que vejo constantemente, os governantes geralmente assumem responsabilidade por erros e por falhas, se não o fazem a oposição ataca, a opinião pública repudia. Se a responsabilidade não é clara, eles buscam alguém, nenhuma situação pode passar sem responsáveis se não for comprovado que se trata de uma fatalidade. Não digo que essa característica é sempre, boa, tende a criar uma pressão enorme e muitas vezes provocar o sacrifício de bodes expiatórios. Entretanto, certas posições públicas exige esse tipo de postura, as vezes é necessário que alguém bom e competente assuma seus erros e de outros, e evite o desgaste da própria instituição.

O mesmo vale para grandes empresas. Anos atrás vimos o presidente da Nintendo pedindo desculpas em público pelo erro de cálculo no número de unidades produzidas pelo Wii. Lógico que não foi um erro pessoal do presidente, ele nem precisava pedir desculpa por isso, mas o fez para mostrar que a instituição, a marca Nintendo é composta por pessoas, pessoas que erram, que sabem que errara e que querem melhorar. Não é por um acaso que as empresas japonesas são as que mais fazem recall de veículos (a afirmação carece de comprovação, mais um dado pessoalmente constatado). Não são os mais problemáticos, pelo contrário, são os melhores, mas as empresas tem esse costume de se responsabilizar pelos defeitos, ainda que pudessem passar desapercibidos.

No fundo é isso que eu admiro nessa postura, quem assume publicamente o erro assume implicitamente que quer fazer diferente, ou ao menos assume que podia ser diferente. No Japão isso se materializa com a administração pagando indenizações expontaneamente, sem necessidade de pressão do judiciário, ou com políticos renunciando, assumindo que deviam ter feito de outra forma, que sabem o que fazer, mas que merecem uma auto-punição.

A propósito, nem sempre essa postura é clara, especialmente se nós nos pautamos pelos noticiários internacionais. No caso do Terremoto de março de 2011, falou-se muito como os japoneses, em vez de procurar um responsável estavam trabalhando para reconstruir o país, que esse tipo de discussão lá só viria depois…

Uma grande mentira, desde o início o governo e a companhia que administrava a usina brigaram para definir quem era o responsável e quem deveria pagar a primeira rodada voluntária de indenizações. Demorou muito para cada um assumir um parte do erro, e o governo não assumiu que estava alerta, por conta de vários relatórios de especialistas, de que o acidente não só poderia como certamente iria acontecer. Essa postura “fraca” levou ao que vimos nas eleições em 2012, um massacre da oposição.

Esse exemplo serve, por sinal, para mostrar que nem sempre se assume a quantidade correta de responsabilidade, e deve ser normal fugir disso, mas, ao menos comparativamente com o Brasil, existe uma pressão maior e uma resposta da opinião pública mais forte. Aqui não importa o quanto se demonstre que houve um erro, não importa nem mesmo que a administração pública saiba que errou, se algo precisa ser corrigido, será feito as escondidas, e mesmo que se torne público, negam até o fim que erraram, se corrigiram foi por algum outro motivo.

Esses dias vi que instalaram um placa bem no meio de uma ciclovia, saiu no jornal, com várias críticas ao projeto em geral. O engenheiro responsável, falou que estavam reclamando de boca cheia, que apesar de falhas era bom. Depois colocaram uma empresa para se responsabilizar pela instalação errada da placa. No fim somos obrigados a engolir que o que importa não é a qualidade do serviço, mas as boas intenções do ente público, e, se alguém errou, foi a empresa, e não aquele que deixou de fiscalizar.

Não sei, estatisticamente, o quanto o Japão é melhor, mas a impressão é que valorizam muito a responsabilização daqueles que atuam com dinheiro público. Outro fator relevante é a consciência da população, o povo em alguma medida sabe do erro mas quer saber o que foi feito errado. Aqui existe apenas a eventual cobrança popular irracional. Vejam o caso do mensalão por exemplo, 99% das pessoas não sabem o que foi, não sabem quem embolsou dinheiro, quem pagou, só decidem aceitar que é tudo um esquema do PT para que os membros do partido enriqueçam (não tem nada a ver com isso, mas é isso que todo mundo vê). As vezes eu acho que os políticos no Brasil tem medo de assumir seus erros porque as pessoas não vão entender, ou vão entender tudo errado. É reprovável mas a culpa também é do eleitor.

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Uma resposta para “Senso de Responsabilidade do Japonês

  1. Perfeito! Concordo plenamente com texto, nós brasileiros deveríamos ter mais conhecimento sobre política e teríamos um país melhor! Japão realmente é diferente e sempre que pergunto a um japonês sobre o governo ele sabe explicar-me ele sabe quem são e o que fazerm…muito diferente quando abordo um brasileiro que ou sabe defender ou criticar sem conhecimento de causa! Abraços.

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