A relação entre Eleições no Japão e AKB 48

Essa semana uma notícia me chamou a atenção para uma relação que eu não tinha pensado ser possível na política japonesa (tendo em vista que minha imagem da campanha que acompanhei lá era bem…séria), a relação entre AKB 48 e a campanha eleitoral japonesa. Mais especificamente a campanha governamental para convencer os eleitores a votarem, tendo em vista o fato do voto ser facultativo.

Contextualizando, AKB 48 é uma banda pop japonesa (ou j-pop, que seja) composta por, salvo engano, uns 100 membros, todas meninas de uns 15 a 20 anos que “cantam” e “dançam”. Aspas obviamente porque as performances e as músicas, com tanta gente dançando não pode ser grande coisa.

Enfim, a notícia que me chamou a atenção é que 3 componentes da banda (Minami Takahashi [21 anos], Tomomi Itano [21 anos], e Yui Yokoyama [19 anos]) foram escolhidas como “image character” (ou seja,  mascotes hahaha) das eleições para o governo de Tokyo…. e já é a SEGUNDA vez que essa banda exerce tal função. Não sei como me escapou que na eleição passada algumas componentes da banda já haviam sido escolhidas para isso, mas, de qualquer forma, vamos à análise.

A princípio a notícia me surpreendeu. Com a imagem séria que eu tinha da eleição que presenciei, com pôsteres contidos, longos discursos em carros de som no meio da cidade, não me parecia que havia espaço no Japão para essa “interferência” de artistas nos processos eleitorais como vemos no Brasil. Mais do que isso, não me parecia apropriado que o símbolo de uma eleição para o governo de Tokyo seja um monte de menores de idade fetichizadas sexualmente vestindo saias extramamente curtas.

Por outro lado, a lógica da escolha não é difícil de entender. Com a participação cada vez menor de eleitores, algo em torno de 57%, é importante recuperar a participação popular e reforçar o processo democrático. No caso, acredito que é mais fácil atingir os jovens japoneses com campanhas “pró-voto”, por duas questões:

1) A infantilização e e a falta de contato com o mundo real faz com que esse jovens cheguem à casa dos 20, 30 anos sem contato com os assuntos, digamos assim, sérios que conduzem a política do país, e no cenário político japonês extremamente confuso e desacreditado a chance de que a abstinência nas votações venha especialmente dos mais jovens é muito grande.

2) Justamente por essas característica da juventude japonesa, provavelmente esse jovens são mais suscetíveis a campanhas um pouco apelativas, tanto pela facilidade de identificar o que está na moda quanto pelo poder de influência das tendências sobre esse grupo populacional.

Pesquisando mais sobre o tema, de fato, a participação do AKB 48 causou um aumento de quase 4% na participação das eleições, justamente nesse grupo de 20 e 30 anos. A escolha desse grupo em específico foi uma boa idéia em matéria de eficiência numérica, já que sua influência tem sido testada e aprovada no país diariamente. Um grupo com essas características obviamente não se destaca tanto pelo talento musical, mas pelo apelo visual, pela popularidade, e naturalmente é uma máquina de fazer dinheiro, participando de campanhas publicitárias de todo tipo, a partir das quais é mais fácil quantificar a força da influência sobre o público alvo.

Por outro lado, é de se questionar o quão saudável isso é para a democracia. Participação é importante, mas a qualidade da participação é mais importante ainda, no sentido da relevância da consciência dessa participação, a tal ponto que cientistas políticos como Robert Dahl considerarem que a democracia é mais caracterizada pela possibilidade de contestação do que de participação.

Aumentar os números só camufla o problema da falta de interesse e da falta de noção e conhecimento de política dos jovens, o que, em última instância, significa a falta de capacidade de contestar e criticar fora daqueles espaços de crítica genéricos e alienados (ah, não gosto de política, políticos são todo corruptos e etc). Ou, pensando bem, em vez de camuflar, mostra o nível de imaturidade, ao ponto de que muita gente só vai votar porque um bando de meninas de uma bandinha pop pediram para que participassem da eleição.

Pode ser que o governo planeje primeiro introduzir os jovens na participação política e depois cultivar o interesse de verdade, mas será que isso funciona? Na primeira participação da banda não me parece que houve muito critério na escolha das meninas, foi realmente algo mais apelativo, agora selecionaram 3 que estão em idade de primeiro voto, mas, qual o próximo passo que vai conferir seriedade à essa campanha?

Seguem os dois sites que me chamaram atenção para o caso.

http://news109.com/archives/7570805.html

http://www.yomiuri.co.jp/election/local/news/20121112-OYT1T00846.htm?from=main7

Anúncios

7 Respostas para “A relação entre Eleições no Japão e AKB 48

  1. Boa matéria, e parabéns pela contextualização. Realmente, a alienação está sendo combatida com algo que a alimenta. Talvez o próximo passo seja colocar as meninas como mesárias. O cidadão vota e ganha um beijo.

    E permita-me indicar dois textos do meu finado blog, ligados ao tema:

    AKB48 e sua presença na cultura pop japonesa:
    http://nagado.blogspot.com/2012/05/sobre-febre-akb48.html

    Idolatria e perseguição no mundo otaku:
    http://nagado.blogspot.com/2011/09/idolatria-e-perseguicao-no-mundo-otaku.html

    Abraço!

    • Alexandre, primeiramente, que bom que gostou do post.

      Em segundo lugar, muito interessantes seus textos (e seu blog, lamentavelmente finado).

      No período em que morei no Japão peguei exatamente o “boom” da banda, e acabou sendo uma ótima chance de ver a reação de ocidentais e japoneses. Demorei para escrever sobre o tema, e, de qualquer forma, acho que voce já fez um ótimo trabalho.

    • Mais uma coisa. Eu geralmente fico bem satisfeito com comentários no blog (elogiosos ou não haha), e agora, vendo melhor seu blog, vendo quem você é, fico ainda mais feliz, considerando que eu era um comprador assíduo da SET, da Herói, ocasional da Henshin e leitor eventual do Omelete.

      Estando a mais tempo nesse “mercado” que é falar do Japão além da exotização do país, você deve saber como é difícil promover um conteúdo ddiferente sobre o Japão (não que eu ache que o blog aqui tem muita qualidade, mas eu tento). O alcance desse site é bem pequeno, não faço idéia de como chegou até você, mas, enfim, saber que chega em pessoas que se interessam é que faz com que eu continue com essas postagens.

      Espero que possamos continuar mantendo contato.

      Abraços

      • Olha só, eu demorei pra identificar o seu nome. A matéria sobre a diligência do trabalhador japonês eu não apenas li como indiquei várias vezes no Twitter para meus contatos. Foi um contato do Twitter, inclusive, quem indicou a postagem sobre o AKB48 nas eleições. No Jornal Memai eu já li várias matérias, sendo que descobri a publicação através da minha amiga Mylle Silva.

        Abraço!

      • Essa matéria sobre diligência segurei por muito tempo. Por ser fruto de uma pesquisa conduzida no Japão, mas sem perspectiva de publicação acadêmica, queria levar à um lugar mais visível que meu blog, sob pena de ser mai um texto esquecido.

        E vendo seu twitter reconheci quem indicou meu artigo, o Otakismo, que tinha um blog excelente também finado. A divulgação lá explica o movimento atípico ontem e hoje, quase o dobro do normal por aqui.

        Abraços

  2. Primeiro desculpe se for inconveniente comentar algum post mais antigo. Apenas agora começo a olhar as datas.

    Sobre o Japão, acho interessante que mesmo com uma população altamente alienada (não consigo palavra mais simpática), eles conseguem resolver problemas que o Brasil não consegue. Acho que no ocidente de modo geral muito se fala dos malefícios do groupthinking (um grupo qualquer pensar da mesma forma, como um individuo só), mas eu acredito que também existam alguns benefícios. Não irei especular demais, pois não conheço todas as peculiaridades, mas uma coesão de esforços me parece mais benéfica do que prejudicial muitas vezes.

    Desculpem se fui muito abstrato, mas, como disse, não conheço as peculiaridades para especular melhor.

    • Talves isso se deva ao fato de que eles são alienados pelo trabalho. No Japão trabalha-se muito (no mal sentido até). Para muita gente não sobre tempo para se deslienar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s