Primeiros comentários sobre XXII ENPULLCJ / IX CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS JAPONESES

 

O nome do evento é longo, mas vamos começar por ele: XXII ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS DE LÍNGUA, LITERATURA E CULTURA JAPONESA – IX CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS JAPONESES NO BRASIL.

Pois bem, como o nome demonstra trata-se de um encontro Nacional conjugado com Congresso Internacional. E isso é a primeira coisa que me chamou atenção, muita gente de outras cidades, estados e países. Eu não tinha noção da amplitude do evento, então foi uma grata surpresa a dimensão do evento. Não vou ficar muito em impressões genéricas e vou direto ao ponto, o que achei das palestras, comunicações, posteres e reação dos participantes no evento.
– Dia 30/08/2012

1) ABERTURA
Várias autoridades, Reitor, Vice-Reitor, Consul do Japão, representantes da prefeitura, governo, Japan Foundation, representantes do Curso de letras, departamento, coordenação.  Enfim, padrão da abertura com os discursos mais políticos do que qualquer outra coisa, tirando o dos próprios organizadores que tem sentimento de verdade.

2) 1ª Mesa Redonda

Iniciou com o Professor Jeffrey Lesser da Emory University. Essa palestra inicial ditou o tom que foi seguido na grande maioria, abordando muito mais o tema imigração e nikkei do que o Japão, efetivamente. O interessante é que ele começou destacando uma questão muito importante: que a colônia japonesa não é como se fosse um microcosmo do Japão transplantado para outro lugar, e as questões de identidade nikkei não devem ser tratadas com ponto de referência no Brasil ou no Japão, mas sim com base em outras comunidades de imigrantes. Assim, se olhamos para os japoneses pode ser dito que é típico do Japão formar kenjinkai, ou que é típico ser muito unido e etc, só que esse tipo de atividade também é observada entre judeus, árabes, italianos… Ou seja, muito do que consideramos tipicamente japones na verdade é típico de imigrantes em geral. Depois ele passou uma fotos bizarras de um Rabino Ninja, festa judaica que é a maior festa de Sushi de São Paulo, coisas do gênero para mostrar que, pelo que eu entendi, a identidade dessas comunidades se encontra mais em uma mistura de costumes, tanto que chineses e coreanos muitas vezes tem uma identificação ou integração na colônia Japonesa.

A segunda palestra foi da professora Christiane Stallaert da Bélgica (Universidade Católica de Leuven). Japão ou imigração japonesa não tem nada a ver com a especialidade dela, então foi mais um encaixe do tema em algo do qual ela entende. O tema foi “Imaginando o Japão nas Américas . Da Modernidade à Transmodernida”, mas tratou muito mais das questões de Modernidade e transmodernidade do que de Japão, e colocou a questão de identidade como uma questão de identidade transmoderna. Dispersei bastante na apresentação.

A terceira palestra foi ministrada em Nihongo pelo Professor Koichi Mori da USP que contou a história da médium Maria Nobuko, que utilizava ao mesmo tempo técnicas de chamamento de espírito da umabanda e também a técnica de Okinawa chamada “kamidari”. Foi uma apresentação biográfica, digamos assim, mas também bateu na tecla da identidade nikkei que mistura Brasil e Japão etc etc etc…

Foi uma mesa redonda de História e Antropologia bem interessante, não muito conclusiva, e como eu disse marcou exatamente a abordagem que seguria no evento, ou seja, identidade nikkei, o que, em que pese seja relevante não me é especialmente interessante.

3) ALMOÇO

Almoço é isso mesmo, almoço, lunch, 昼ごはん.

4) COMUNICAÇÔES

É nessa parte que eu entro. Foram várias sessões, 8 se não me engano, a maioria de língua, cultura. A minha (sessão 7) focou em história, então teríamos a minha apresentação “Crise dos Valores da Modernidade na História Constitucional Japonesa”. A temática parece monótona mas não é, e também não é muito complexa, é uma visão geral da história constitucional japonesa na qual eu confrontei valores modernos e pós-modernos para mostrar que a modernidade vive em crise. Usei a questão da renúncia à guerra para demonstrar que mesmo uma constituição que nunca mudou formalmente não eterna (e moderna) e sim efêmera, na medida em que a interpretação muda o tempo todo.

Depois tivemos a Apresentação do Romulo Ehalt sobre historiografia, questões eminentemente sobre a metodologia da pesquisa de história no Japão a partir da Era Meiji (15 minutos foi pouco, sorte que será publicado nos anais para futura leitura).

A última comunicação foi sobre “Okinawan Network” ministrada pela Shinko Kumihara, novamente entrando na questão de imigração dos japoneses, e nas diferença de valores entre  povo de Okinawa e o povo da das outras partes do Japão, e o reflexo disso nas comunidades de imigrantes de Okinawa.
Não tinha muita gente assistindo então pulamos o debate.

5) COFFEE BREAK

Bem saboroso, e lotado.

6) Pôsteres

Dei uma olhada em alguns pôsteres. Tinha alguns falando sobre Genji Monogatari, tenho pouca familiaridade com o tema, vi por curiosidade, deve ser algo batido para os estudantes de Letras mas para mim é bem interessante. Novamente algumas questões de imigração que deixei de ver por falta de curiosidade. Achei interessante algumas questões sobre ensino, como um programa nas escolas de Curitiba de ensino de Nihongo.

Me chamou a atenção os pôsteres sobre kaidan (contos de fantasmas, assustadores e etc) na medida em que em Hachioji se falava muito disso (e eu morava exatamente colado em um cemitério, então vivia junto das assombrações). Me interessa o kaidan porque eu realmente nunca me aprofundei sobre o tema, mas sempre achei interessante especialmente a questão da linguagem, a apresentação do fantástico com naturalidade, como se fosse normal, os finais ambíguos, o conteúdo sugestivo. Vejo muita gente falar sobre kaidan mas mais por diversão do que por uma preocupação estilistica ou de elementos característicos, o que me pareceu ter sido enfrentado corretamente nos pôsteres (não sei se também deram origem a artigos, seria interessante de ler no anais do Congresso).

Um deles focou na invencibilidade dos fantasmas nesses contos, o que é um elemento mais óbvio, mas essencial. Reparo muito que geralmente não existe a idéia de cofronto, e sim de fuga e derrota. Só esperava que isso fosse abordado quem sabe numa questão filosófica oriental, na temática da inevitabilidade das coisas, do ciclo do qual não se pode escapar.

O outro pegou em um ponto que eu já tinha pensado várias vezes, que é uma presença constante de criaturas femininas. Isso era especialmente evidente para mim porque toda história que eu ouvia em Hachioji (e lá todo mundo tinha uma para contar ou um conto para ler) envolvia fantasmas femininos em busca de vingança, e isso tinha um destaque maior por duas questões circunstanciais: 1) O poço do filme Ringu, do fantasma Sadako fica em Takiyama Koen; 2) Some-se a isso o fato de que naquele ano o anime de maior sucesso era Kimi ni Todoke, que toca tangencialmente no tema, já que a protagonista é comparada à tal da Sadako de Ringu , e isso gerava inevitalvemente idas ao poço a noite, sustos, piadas e etc, e sempre tudo relacionado com espíritos femininos, nunca masculinos, que a princípio achei ser pela relação muito forte entre poço e personagem, mas que na verdade agora me parece ser algo muito inerente do kaidan. Isso rendeu algumas conversas produtivas depois do evento com uns antigos colegas do Japão.

Bom, o importante é a existência de uma abordagem acadêmica disso porque  na verdade o que eu mais sentia falta no evento até aquele momento era a questão da literatura, dos estilos típicos japoneses, até ali os pôsteres supriram essa lacuna, porque para mim (e pode ser ignorância minha, ou não) letras é (ou deveria ser) 90% literatura, a magia da língua são os livros, e parece que muita gente do curso de letras não lê, não gosta de ler e acaba focando em questões tangenciais importantes mas que na minha opinião não chegam perto da importância do livro, história contada em si, que é ao mesmo tempo a melhor forma de passar o tempo, a melhor forma de construção do indivíduo  e o objeto de estudo mais complexo e fascinante. Se tenho uma crítica ao evento (mas é uma crítica muito pessoal pois sei que não é um evento de literatura) foi o espaço pequeno para a questão literária tipicamente japonesa, que acabou obscurecida por questões de literatura nikkei.

O restante da “cobertura” do Congresso segue no próximo post já que este já está bem grande.

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