Samurai Mistificado: Bushido?

 

Indo diretamente ao assunto, em continuação ao post anterior, vou abordar o tema mais representativo da mistificação dos samurais: o Bushido (ou Caminho do Guerreiro, Código Samurai e todas as terminologias e traduções por aí)

É tão evidente a impropriedade com a qual o tema é tratado que vou manter o texto o menos técnico possível, vou apelar para a lógica para mostrar que nesse caso não é preciso nenhum conhecimento acadêmico muito grande, só alguma noção da história japonesa, para questionar a figura do Código do Samurai.

Pois bem, em geral o Bushido é apresentado como um conjunto de regras seguidas pela casta samurai, desenvolvido desde o século XII e amplamente praticado sem muitas diferenças entre clãs. É quase sempre resumido em 7 virtudes (Justiça, Coragem, Compaixão, Polidez, Sinceridade, Honra e Lealdade) e tem entre seus principais representantes Miyamoto Musashi e Yamamoto Tsunetomo com o Hagakure.

Vamos às contradições. O Japão é um país de unificação precária e tardia, que data do século XVII. Claro, houve antes disso alguns períodos de algum nível de unificação administrativa, mas nada muito relevante. Inclusive por força da topografia montanhosa do país o isolamento é quase inerente à algumas provincias. Prova disso é a existência de dezenas de dialetos em uma ilha de proporções diminutas. Ora, se nem o idioma conseguiu ser 100% padronizado, seria possível que uma lei não escrita conseguisse o nível de internalização pretendido por alguns?

Me parece que não, de tal sorte que a própria expressão Bushido foi cunhada já na era moderna, século XVII ou XVIII. A semelhança de comportamento e idéias que constam em registros mais antigos é muito provavelmente fruto dos preceitos Budistas, Confucionistas, e Xintoístas, estes sim difundidos pelo território, que, “coincidentemente” pregam a obediência, polidez, compaixão. Entretanto, muitos desses preceitos tem a prática restrita a determinadas relações hierárquicas, logo, nada de imaginar que essa deveria ser a postura do samurai, ou de qualquer japonês, perante todas as classes sociais.

A perpectiva do bushido que temos hoje é, por incrível que pareça,uma perspectiva cristã, que foi difundida no século XX por teóricos Católicos como Inazo Nitobe e Uchimura Kanzou, ou seja, nada tem de tradicional, não tem nem relação com o Bushido burocrático dos dois séculos anteirores.

Ainda na questão da “ampla aplicação do Bushido”, outra questão a ser levantada é o fato de que seguir tais preceitos não era obrigatório. Na verdade as leis em geral obrigavam a observância de certas dessas práticas a funcionários públicos, oficiais da nobreza e etc, mas mesmo assim sem uma sanção definida. Por si só, esse fato põe em dúvida o quanto os preceitos eram seguidos na vida real, e quanto os documentos que chegam até nós eram visões idealizadas do dever ser.

A dúvida parece ser solucionada observando os mais famosos acontecimentos históricos que envolvem os samurais. Indo para o tempo do primeiro Shogun Yoritomo, este mandou matar seu irmão Yoshitsune por, entre outras coisas, temer seu carisma e seu talento militar. Onde está a coragem, honra, justiça, lealdade polidez, sinceridade em mandar matar o irmão que o ajudou a tomar o poder. E essa lógica prossegue, Shoguns esbajando luxo, imersos na luxúria e na riqueza são eventualmente destituídos por Daimyos “fiéis”.

Nobunaga foi morto pelo seu mais fiel aliado. Hideyoshi foi traído postumamente por Tokugawa, que usurpou o poder de seu filho. Os três usaram os missionários cristãos com falsas promessas, apenas para obter armas de fogo.

E os ninjas, o que falar dessas figuras que são ainda mais mistificadas que os samurais? Não eram o assassinos misteriosos retratados pelo cultura popular, mas espiões, muitas vezes samurais empobrecidos fazendo o trabalho sujo dos mais poderosos. E quanto às guerras em torno da restauração Meiji, as traições dentro do exército do shogun em Toba-Fushimi?

A história revela que o Japão foi construído, como qualquer outra nação, em torno do oposto dos tais preceitos do Bushido. Pode-se alegar que é no pequeno samurai, e não nos poderosos que o tal Caminho do Guerreiro se revela, mas como ter certeza se os relatos são reticentes, e se a “grande história” mostra que prevalece outro comportamento? É importante lembrar que o próprio conceito de samurai muda ao longo dos séculos. O samurai do século XII não é o mesmo guerreiro político do século XVI, que não é o mesmo burocrata do século XVIII. Falar “o bushido” ou “o samurai” é algo bastante impróprio. Existiam regras de conduta? Sim, mas variavam de lugar para lugar, e não representavam uma lei cogente. Existiram samurais que seguiram essas regras? Sim, mas quais samurais, de que época?

O efetivo uso da expressão Bushido, e alguma sistematização precária vem com o Shogunato Tokugawa, nos anos 1600, 1700, 1800 e vêem para domesticar uma classe acostumada à guerras, acostumada a traições. O Período é inclusive um período de paz. Aqui se percebe a maior incoerência, fala-se do Bushido como Código de Conduta do Guerreiro, mas, se existiu um Bushido mais ou menos sistematizado, existiu numa época em que o Samurai era mais burocrata do que soldado. Usamos Musashi como exemplo do Bushido (posterior à ele), mas nos baseamos em um romance do século XX, em pleno momento de mistificação dentro do Japão para desenvolvimento de sentimentos nacionalistas. O Musashi das lendas é exemplo do Bushido mas não o cumpre, adota artimanhas (estratégia?) e métodos pouco convencionais que podem muito bem ser interpretados como contrários às sete virtudes.

E o que falar de de Tsunetomo e do Hagakure. “Sistematizou” a versão mais famosa do Bushido, mas, quem é ele? Um velho domesticado e idealista que supostamente não pode se suicidar depois da morte de seu senhor e em idade avançada mostrou o que achava ser o Bushido. Dentre as pérolas, fingir que vai conciliar dois adversários e matar ambos (cadê a coragem, honestidade e etc.), ter relações sexuais com homens mais velhos para o amadurecimento, ou que tal comer bosta de cavalo malhado para se curar de gripe?

Enfim, uma grande mistura de informações de épocas diferentes, questões particulares transformadas em regras de conduta de toda uma classe, vistas grossas para tudo que contraria essa idealização. Não são precisas muitas fontes para ver que tem algo errado na visão do samurai e do Bushido que chegou até nós.

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6 Respostas para “Samurai Mistificado: Bushido?

  1. Caro Eduardo, parabéns pelo post! Ótimo! Um abraço. Rogerio Dezem (Universidade de Osaka – Handai)

    • Obrigado Rogério, fico feliz que alguém com excelente conhecimento sobre o Japão (a busca pelo seu nome no Google e o fato de estar na Universidade de Osaka revelam isso haha) tenha gostado. O texto ficou meio truncado, estou inclusive preparando um mais enxuto, mas acredito que o objetivo de desmistificar o Bushido aos poucos vai sendo cumprido, senão entre o público em geral, pelo menos entre os que tem pretensão de ir mais a fundo no tema.

      Tenho também alguma produção acadêmica sobre o Japão em andamento, com boa parte da bibliografia obtida quando estudei por lá, majoratariamente em Japonês, uma escolha que tem sido rara no Brasil, onde, por dificuldades linguisticas ainda se opta por autores ocidentais. Espero poder compartilhar esse conhecimento assim que estiver devidamente publicado.

      Abraços,

  2. Pingback: Bushido Desmistificado e (mal) Esquematizado « Nihon Go !·

  3. Um ponto que eu gostaria de acrescentar (e que pode ficar para outro texto):

    O discurso de que o guerreiro deveria buscar pela morte em combate foi muito fomentado no período Edo, justamente quando não havia mais guerras. Sem meias palavras: muito fácil falar de um destemor diante da morte quando o risco de morrer em batalha inexiste.

    Já vi uns documentários e li uns textos que falavam isso, mas os registros de deserções em campo de batalha do Sengoku Jidai servem como grande contraposição a todo um discurso de valor (sem muito valor, ironicamente) criado depois.

    Curiosamente, esse destemor pela morte se manifestou com mais força na contemporaneidade, com os kamikaze e demais soldados japoneses fanáticos, alvos de toda uma lavagem cerebral muito bem arquitetada (como nunca antes havia sido) por todos os lados. E arrisco dizer que foi nessa época que o ideal de bushidô esteve mais em voga.

    Eu poderia comentar mais, mas acho que não somaria muito ao texto que, para sua proposta, está muito bom!

  4. Oi,

    Obrigado pelo post. Já desconfiava um pouco dos pontos apresentados, porém sem ter conhecimentos tão específicos. Acho que preferia ficar sem saber os detalhes do Tsunetomo (rsrs), mas nada que desqualifique todo o resto. Se possível, gostaria que falasse sobre a introdução das armas de fogo no Japão, pois sou particularmente interessado nessa parte da história.

    Obrigado mais uma vez.

    • Eu tenho uma obra sobre a introdução das armas de fogo no Japão em algum lugar da minha casa, mas não prometo um artigo sobre isso tão cedo já que hoje eu foco mais no Japão moderno e contemporâneo.

      De qualquer forma, obrigado pelo interesse no blog 🙂

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