Samurai Mistificado: De quem é a “culpa”?

Imagine que um senhor idoso do interior do Brasil vá ao Japão, ou então um mestre de capoeira, imaginemos até mesmo um sujeito que tenha nível superior de educação, um engenheiro, médico, advogado, por exemplo. Questionado sobre a história brasileira, a chance de que conheça bem todos detalhes é pequena, a chance de seus relatos estarem repletos de informações pouco atualizadas e manipuladas ideologicamente é muito grande. Saberia explicar que o descobrimento do Brasil não é um decobrimento em si? Até alguns anos atrás não se falava de Pinzón e outros que estiveram aqui antes de 1500. Mostraria Tiradentes como o bode expiatório que foi ou como um herói absoluto líder dos inconfidentes? Provavelmente um estrangeiro que tenha se especializado na história do Brasil saberia discorrer sobre todos esses temas com muito mais propriedade, mas, ao menos na mentalidade brasileira, a sua opinião seria preterida pela do sábio caboclo.

A minha primeira reflexão quanto à mistificação de tudo que diz respeito à história japonesa, que vem no sentido de atribuir à alguem a culpa por isso, pode ser um pouco dura, mas me parece interessante encontrar alguns fenômenos que justificam a origem dos meus questionamentos. Portanto, atribuo a tres grupos a  disseminação da visão mistificada do Japão: 1) à própria colônia japonesa; 2) aos praticantes de artes marciais; 3) à cultura pop em geral, que vai desde a industria do entretenimento até a paraliteratura e ao circuito dos livros de auto-ajuda empresarial e pessoal.

Todos tomam como fonte de sua visão a suposta “tradição” e não a análise da história, nem o trabalho daqueles que se dedicam ou se dedicaram ao estudo da história japonesa, dos samurais e etc. Tomam em geral o relato de indivíduos, imigrantes, turistas, viajantes, mestres de artes marciais e tomam aquilo como verdade.

Não digo nem generalizo que essas pessoas estejam erradas, que transmitam informações erradas de má-fé, mas o fato de um sujeito ser um senhor idoso oriental, especialista em artes marciais que aprendeu tudo que lhe foi passado por seu pai ou mestre, que por sua vez aprendeu tudo que seu mestre ou pai ensinou, muitas vezes não o credencia nem mesmo a falar da história da própria “arte” que ensina ou da história da região em que nasceu.

Entretanto, a palavra dessas pessoas é mais valorizada pelo “público” do que a de um acadêmico ocidental (e até mesmo oriental), por exemplo. Para não dizer que se trata de preconceito com os japoneses, a regra se aplica à transmissão “hereditária”, até mesmo falsa, dessas informações. Se um ocidental diz que foi ao Japão e aprendeu os segredos ensinados pelo mestre tal, ele é tido como guardião da mais profunda sabedoria.

Não quero desvalorizar a sabedoria popular e as experiências pessoais, mas o fato é que se prestam para construir alguns aspectos da história, mas não são uma representação fiel e confiável da mesma.

Em geral os imigrantes, descendentes de determinada nacionalidade tem uma visão tão geral (ou viciada, dependendo do país) da história do país de origem quanto um brasileiro. Não é porque a educação do Japão é considerada excelente que qualquer indivíduo sabe tudo em todas as áreas de conhecimento. Pelo contrário, é uma educação voltada a decoreba que, passados os testes de ingresso em universidade, são esquecidos em pouco tempo. Assim, deixo aqui clara minha reserva quanto ao conhecimento obtido por essas fontes e supervalorizado em detrimento do conhecimento “acadêmico, digamos assim.

Quanto à cultura popular, nem preciso dizer que ela bebe em grande parte desse conhecimento não tão confiável pois em geral ele é muito mais interessante, tem heróis e vilões, tem uma “filosofia” ( e sempre surge o uso incorreto dessa palavra) bastante estereotipada de um orientalismo zen, da honra, da lealdade, da bravura. Não sou um historiador e nem tenho muito conhecimento sobre historiografia, mas a minha formação, combinada com a minha visão do mundo, e inclusive com a visão que formei dos japoneses com relação a sua visão da história, me permite afirmar sem sombra de dúvida de que a visão romântica e mistificada da história japonesa, especialmente na figura do samurai, oblitera toda a sua complexidade e não condiz com o que a conexão dos fatos e o estudo da realidade política e social dos diversos períodos da história do país revelam.

Dito isso, na próxima postagem vou exemplificar alguns enganos comuns, e gigantes, com relação à visão que temos do “Japão Feudal”.

Anúncios

6 Respostas para “Samurai Mistificado: De quem é a “culpa”?

  1. Olá Eduardo. encontrei seu blog recentemente e talvez você já tenha escrito sobre isso, mas como você conseguiu uma bolsa na soka daigaku ? Quais foram os requisitos necessários? Tenho um grande interesse na cultura japonesa e estou começando a aprender a língua para futuramente fazer um intercâmbio cultural. Gostaria muito de saber. Obrigada.

    • A bolsa para Soka foi obtida por meio do Convênio Soka – UFPR. É disponibilizada uma vaga por ano, a partir de um processo seletivo aberto à toda comunidade acadêmica da UFPR. Outro requisito, além de ser aluno matrculado na UFPR era o conhecimento básico de nihongo, já que a prova é nesse idioma. A bolsa cobria passagem aérea, hospedagem, todas as taxas da universidade e pagava 80 mil ienes por mês.

  2. Pingback: Bushido Desmistificado e (mal) Esquematizado « Nihon Go !·

  3. Muito bom o texto! Sincero e fluido.

    Tenho, todavia, que colocar um fator de número 0, que vem antes dos 3 colocados e os gera: o nacionalismo japonês, ideologia fomentada pela elite dominante do fim do século XIX.

    Isso se mantém até hoje, e de maneira muito forte. Grande exemplo: a geografia mundial é bem fraca dentro do sistema educacional japonês e, enquanto os canais privados de televisão pouquíssimo fazem para aumentar os conhecimentos sobre o estrangeiro, o NHK, em seus documentários, muitas vezes mostra os outros países como exóticos e/ou subdesenvolvidos, de maneira bem etnocêntrica.

  4. Tenho que colocar um fator de número 0, que vem antes dos 3 colocados e os gera: o nacionalismo japonês, ideologia fomentada pela elite dominante do fim do século XIX.

    Isso se mantém até hoje, e de maneira muito forte. Grande exemplo: a geografia mundial é bem fraca dentro do sistema educacional japonês e, enquanto os canais privados de televisão pouquíssimo fazem para aumentar os conhecimentos sobre o estrangeiro, o NHK, em seus documentários, muitas vezes mostra os outros países como exóticos e/ou subdesenvolvidos, de maneira bem etnocêntrica.

    E é bem chato ver que grande parte das informações que o povo japonês em geral tem do exterior vem desses documentários que colocam uma música triste e lenta enquanto mostram uma cena escura e empoeirada com a narração falando da vida sofrida na Tailândia / Tibet / México / Brasil / Mongólia / tantos outros.

    Isto pode parecer contraditório, mas é uma maneira de implicitamente falar na maior-cara-de-pau que “o Nihon é mais e melhor!”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s