Regras escritas e não escritas do Japão que poderiam ser seguidas no Brasil

Existe uma série de regras no Japão, que derivam da lei ou do costume, e que são ignoradas por aqui, ou pior, aplicadas de forma oposta, e que, pesando os prós e contras deveriam ser revistas pelo povo povo brasileiro. Vou apontar algumas que me fazem muita falta.

Cigarro: Lá não é proibido fumar em locais fechados, como é em Curitiba. Lá é proibido fumar em locais abertos, andando na rua. Quem quer fumar vai para um dos diversos locais designados para tanto. Pior do que ir à um restaurante com área reservada para fumantes (que no final das contas nem incomoda, se devidamente planejada) é andar na rua e receber as baforadas de cigarro na cara. Só eu acho o cúmulo da falta de educação e consideração alguém fumar andando (ou parado no ponto de onibus, seja lá onde for) deliberadamente expelindo a fumaça de cigarro com a plena consciência de que isso vai atingir diretamente a cara de um provável não fumante?

Bicicleta: Bicicleta no Japão não divide espaço com carro. Sinceramente, acho essa reivindicação dos ciclistas brasileiros um pouco fora de propósito. Não acho que o desrespeito é correto, mas também não acho que o lugar da bicicleta seja no asfalto, junto dos veículos motorizados. No Japão as bicicletas dividem pacificamente o espaço com pedestres, mesmo em calçadas extremamente estreitas. Não me lembro de ter vistovias exclusivas para bicicletas, a não ser nas faixas de pedestre que sempre tem a faixa para pessoas e a para bicicletas.

Me parece que isso sequer é cogitado no Brasil porque existe uma subversão da vitimização da parte mais fraca. A parte mais fraca por aqui muitas vezes parece querer, além de direitos e privilégios (sejamos justos, em geral legítimos) o poder de ser respeitado sempre e não respeitar ninguém. O pedestre é o maior exemplo disso. Passa tanto tempo acuado pela brutalidade dos carros que perde a sensibilidade e acha que pode exigir o respeito quando atravessa fora da faixa, em ponto cego, e, evidentemente, acha que o ciclista é o invasor do império da calçada.

Escada Rolante: Ao utilizar a escada rolante no Japão, se não estiver com pressa você imediatamente se coloca à direita da escada (ou esquerda dependendo do local). Assim que está com pressa pode passar “correndo” pelo lado esquerdo. Não temos essa consciência aqui porque, novamente, o individualismo e essa necessidade de ser respeitado mas não respeitar faz com que muitos se julguem donos de espaços públicos pelo simples fato de que, estando utilizando de forma legal acreditam que não existe limite para seus direitos. E que estiver com pressa que use as escada normais, porque as escadas rolantes obviamente foram criadas para que todo mundo pudesse descansar, esticar os braços e colocar a conversa em dia.

Trem: Existe uma série de regras ao entrar em um trem (ou esperar para entrar) que deveriam ser seguidas por aqui. Primeiramente, se voce está com uma mochila, deve colocar ela imediatamente para a frente, assim você ocupa menos espaço, ou ao menos não fica bloqueando a passagem. Outro costume que deveria ser óbvio é que, ao entrar todo mundo se desloca para longe das portas, de forma a não atravancar a subida e descida das pessoas, deveria ser óbvio mas não é seguido por aqui porque quando o ônibus está lotado ninguem faz esforço para dar passagem, o que leva a outra regra básica de cortesia lá, que é a compreensão de que como o transporte coletivo vai invariavelmente ficar lotado (mais lá do que aqui, inclusive), é inevitável sofrer um empurrão ou pisão. É lógico que ninguem empurra para agredir, é apenas para passar, com a compreensão de que isso é necessário ninguém se estressa e ninguém se esforça para ficar no caminho.

Existe uma série de complicações que surgem com a densidade demográfica de Tokyo, por exemplo. Isso se materializa na quantidade enorme de pessoas que andam nas ruas ou tentam andar nos trens. Nesse cenário é comum esbarrar nos outros, mas em vez de tornar isso numa questão de honra, com xingamentos, olhares tortos como é feito por aqui, tudo é resolvido com discretos pedidos de desculpa de AMBAS as partes. Não existe a necessidade de ser respeitado de forma absoluta, o respeito vem com a reciprocidade, e é dessa consciência de reciprocidade que eu sinto mais falta. Algo que não deveria depender de lei, e na maioria dos casos que citei não é praticado em função de alguma lei japonesa, mas de bom senso, pressão social e sinalização bem posicionada.

Anúncios

6 Respostas para “Regras escritas e não escritas do Japão que poderiam ser seguidas no Brasil

  1. Muito bom comentário mas infelizmente devido a nossa cultura jamais 190Milhões de pessoas irão mudar a sua consciência, também desejo o mesmo que você mas isso é, infelizmente, apenas utopia e nunca irá mudar. A cada dia o país irá ficar cada vez pior e a educação pior ainda.

  2. Gostei bastante deste post, concordo com tudo o que você disse. Isso é claramente uma questão cultural, e só um ótimo investimento na educação mudará esses brasileiros individualistas.

  3. “Outro costume que deveria ser óbvio é que, ao entrar todo mundo se desloca para longe das portas, de forma a não atravancar a subida e descida das pessoas, deveria ser óbvio mas não é seguido por aqui porque quando o ônibus está lotado ninguem faz esforço para dar passagem,”

    Se você pegasse o trem aqui no Rio no horário de pico, meu filho, você veria que isso é IMPOSSIVEL mesmo se a gente quisesse.

    • Mas eu te digo o seguinte, a lotação de onibus e trem no Japão rivaliza, e na verdade ultrapassa o que você vê no Brasil. Para ter uma idéia, só na Estação de Shinjuku são cerca de 4 milhões de pessoas POR DIA. As pessoas se esmagam nos trens, não tem um milímetro para se mexer, e mesmo assim é feito um esforço, ninguém reclama ou fica bufando de tomar um pisão, um empurrão. Além disso é feito um esforço enorme na organização dentro do trem. Quem vai para nas últimas estações vai direto para longe das portas. Não sei no Rio, mas eu Curitiba o povo entra e para do lado da porta, você vê as estações lotadas de gente, o onibus saindo com pessoas esmagadas na porta, e o fundão do veículo vazio. Ou então o onibus lotado, o pessoal do fundo saindo nas estações do meio do caminho e as pessoas da porta saindo na estação final.

      Sei que horário de pico é complicado em qualquer lugar, mas com um pouco de boa vontade e organização se supera muita coisa.

  4. adorei o post, eu moro em Curitiba e sinto muita falta da reciprocidade, disso de você saber que há outras pessoas compartilhando os mesmos serviços e locais, gente que fica parado na porta do onibus, que te empurra para entrar antes de você sair, gente em praças de alimentação que come e deixa a bandeja cheia de restos na mesa e vai embora sem nem considerar que outra pessoa vai usar aquela mesa, gente que fuma e joga cigarro na minha cara (eu costumo tampar o rosto com a roupa e passar apressada me posicionando na frente da pessoa, para constranger mesmo). Uma coisa que me incomoda muito aqui em Curitiba também é a folga dos pedestres, eu sou pedestre e não tenho carro, mas aguento esperar 5s ou até mesmo 1m para atravessar a rua quando o sinal fecha, mas aqui as pessoas se jogam na frente dos carros com uma falta de respeito com o transito que me dá náuseas, coisas de gente sem educação mesmo, que não respeita o próximo. infelizmente.

    • Pois é, são pequenos gestos que se acumulam e acabam causando um stress enorme. Bastam poucas pessoas descumprindo as regras de convivência para tornar vários sistemas em coisas disfuncionais. No Japão basta uma pessoa atravessar no sinal vermelho que os outros seguem. A diferença é que menos gente tem coragem de ser o primeiro a descumprir a convenção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s