Um pouco mais sobre o idioma

Hoje vou falar sobre alguns aspectos do idioma japonês que acho interessantes e criam uma distancia muito grande gramaticalmente do portugues. Não sou um linguista então eventualmente posso acabar dizendo alguma grande besteira do ponto de vista acadêmico, mas, enfim, são minhas observações.

1) O idioma japonês funciona de trás para frente: Em vez de utuilizar a estrutura Sujeito-Verbo-Objeto o japonês se baseia no Sujeito-Objeto-Verbo. Falando assim parece uma diferença pequena, mas na verdade é uma pequena troca de posições que cria um suspense enorme em cada frase.  Imagine o seguinte exemplo: Fulano matou Beltrano com uma faca. Desde o início da frase sabemos o que esperar, sabemos o que está acontecendo, em japonês, pelo contrário, até o fim da sentença não sabemos o que fulano fez. Acrescentando alguns elementos ao acontecimento é possível arrastar por um longo tempo a tensão, algo como “Fulano, no meio da noite, com uma faca, furioso, Beltrano, assustado… o matou !” Claro que aqui em portugues a frase soa estranha mas o que quero mostrar não é uma tradução de significado e sim dar uma noção da tradução gramatical. Ou seja, em japonês, antes da ação efetivamente acontecer temos aquele que age, aquele que recebe, os meios, o tempo, o local.  É possível construir esse tipo de tensão em outros idiomas também, mas de forma excepcional, enquanto no japonês essa é a estrutura padrão, tanto um livro de suspense como um noticiário ou uma conversa trivial vem carregada disso.

E podemos pensar que só os estrangeiros vêem isso como suspense, mas acredito que até os japoneses sentem essa tensão, de forma que utilizam diversas “dicas” ao longo de uma sentença. Por exemplo (aqui o texto vai ficar difícil para quem não tem alguma noção do idioma) ao utilizar a particula が(ga) jogamos o foco da frase para o que vem antes, ao passo que ao utilizar は (wa) jogamos esse foco para o que vem depois (logo, criamos ainda mais suspense). Outras palavras tem função semelhantes.  Geralmente aprendemos que uma condição é representada pelo uso, por exemplo, pelo verbo+ たら (tara), mas a verdade é que é muito comum por aqui não usar apenas o tara, mas já começar a frase com a palavra もし. O mesmo pode ser pensado com まるで e みたい; なぜかというと e からだ; ただ e だけ; ひたすら e のみ; あるいは e かもしれない.

2) Outro elemento interessante do idioma é o uso de pronomes. Ou melhor, o não uso de pronomes. Em Portugues ao escrever um texto, após mencionar um nome vamos posteriormente substitui-lo por pronomes. Utilizando um texto aleatório na internet “ Poirot é um personagem pouco modesto. Ele termina cada caso com um desfecho dramático, satisfazendo o seu próprio ego”. Em japones acredito que teríamos  algo como “Poirot é um personagem pouco modesto, termina cada caso com um desfecho dramático, satsifazendo o ego”. Existe o pressuposto de que não é necessário dizer que ele termina um caso, ou de quem é o ego satisfeito pois isso é óbvio, está implícito. O problema é que em livros didáticos as frases de exemplo sempre dão o sujeito e o objeto, ao passo que um texto real japonês depende do contexto para identificar quem age e quem sofre a ação, logo, ao ter contato com a língua real muitos estudantes se perdem completamente e acabam dizendo que o idioma não é vago, quando na verdade é tão claro que não precisa ficar se explicando a cada nova sentença. É possível escrever uma frase com apenas dois verbos que tem por trás 3 pessoas. Por exemplo 書かせてあげた, são apenas dois verbos  que combinados dessa forma pode significar “Eu fiz ele deixar/fazer ela escrever”. Em nenhum momento essas três pessoas foram mencionadas, mas estão ali, dependendo do contexto… Outro problema para os ocidentais é que estamos acostumados a usar pronomes e dizer “eu”, e quando se utiliza “eu” em demasia o sentido da frase pode ser modificado completamente. Se voce quer dizer que foi a algum lugar em portugues diria “Eu fui”, em japones deve dizer apenas “fui”, pois de outra forma criando outro significado. Se utilizar 私は行きました soa como “Não sei quanto aos outros, mas eu FUI” e se utilizar 私が行きました soa como ” EU fui, sim, EU, EU !!!” uma diferença enorme de sentido simplesmente porque se acrescentou um pronome…

Por fim, mais a título de curiosidade, os números japoneses também tem suas complicações, não vou explicar aqui como funcionam, mas como exemplo dou uma notícia que li hoje falava sobre o número 4300京 (esse kanji significa 10 quadrilhões) e entre parenteses explicava que 10 quadrilhões significa 10 mil vezes 兆 que é um trihão… Ou seja, deu para entender onde quero chegar, para entender números é preciso fazer muitos cálculos mentais…

Pensando nessas idiossincrasias do idioma japones tenho pensado em como é difícil (mas também interessante) traduzir textos do japonês para portugues ou inglês. Aqui falei apenas desses dois pequenos aspectos da gramática, existem muitos outros e ainda a questão estrutural dos jogos de palavra usando kanjis, hiragana e katakana para variar as nuances… Creio que os idiomas em que mais se perde na tradução são justamente esses em que não só a gramática é diferente como também o sistema de escrita que permite toda uma nova dimensão dentro da literatura. De qualquer forma, coincidindo com meu interesse por traduções me foi pedido para traduzir uma carta para professores e alunos do Jardim de Infância Soka em Sapporo, e mesmo uma simples carta foi um desafio grande para adaptar inclusive a linguagem a ser utilizada com crianças e também com professores.

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