Como eu estudo – Parte 2 – Anki e o Direito

Continuando o último post, e indo direto aos resultados da experiência que mencionei, o que ocorreu foi o seguinte: Na Faculdade de Direito obtive uma média geral maior que 9,0 no primeiro semestre. Considerando ser o 4º de Direito, que dizem ser o mais difícil dentro da UFPR foi para mim a prova definitiva da utilidade do anki, especialmente depois que meu resultado no segundo semestre sem o usar o método me levou a uma média, se não me engano, menor que 8,0.

Quanto ao idioma japonês… bom, sempre me considerei como alguém com muita dificuldade em kanji, sempre sofrendo para decorar os mais simples. Depois de usar o anki os Kanjis se tornaram a parte mais fácil, por incrível que pareça. Seja na escrita ou nas diversas leituras, eu diria que 90% das pessoas sofrem e reclamam da dificuldade, depois do Anki os kanjis se tornaram mais fáceis, bem menos preocupantes que gramática e expressões.

Agora vou entrar nos detalhes de como tornei o estudo com os flashcards eficiente, afinal, não basta apenas baixar o programa e usar aleatoriamente, foi preciso definir alguns princípios:

1) Criar os próprios cartões é essencial, o anki oferece vários barallhos prontos, oferece opções de transferir para outras pessoas, mas isso é um erro enorme, se você não usa seu próprio deck não vai servir para nada. Isso porque tanto o processo de busca de informação como o processo efetivo de digitar cada cartão corresponde a mais de 50% do aprendizado, creio eu.

2) As revisões devem ser feitas todos os dias, isso pode levar tempo, mas nunca mais do que 30 minutos. Muita gente pode dizer que não tem tempo, que é difícil, mas aprender exige compromentimento. Ao menos duas vezes por semana eu saía de casa as 6:30 da manhã e voltava as 22h e nem por isso deixava de fazer minhas revisões.

3) Pelo fato de exigir tempo o anki é uma ótima forma de aprender a administrar o próprio tempo, achar o equilibrio entre quanto se dedicar para procurar informações, adicionar e revisar é muito importante.

Passadas essas dicas gerais, vamos a prática de verdade.

Meus cartões de direito eram 90% do estilo a) preencha as lacunas, de preferência curtos. Nem sempre é possível usar esse modelo, e nem sempre é possível fazer cartas curtas, de forma que por necessidade algumas acabavam se tornando b) perguntas de um lado e respostas do outro, ou ainda c) metade de uma frase de um lado e metade de uma frase do outro, há também os cartões com d) uma idéia ou conceito de um lado e explicação ou conceituação do outro. São modelos também efetivos, mas não tanto quanto o de preencher lacunas. Também há o modelo em que escrevo e) uma data de um lado e o acontecimento do outro, esse é um dos modelos que menos gosto mas as vezes é necessários. Por fim também usava cartões em que f) a frente diz que há tantas causas, formas, modelos e etc e no verso, sabendo o número, eu deveria nomear todosVou mostrar alguns exemplos:

a) Frente —> A terceirização pressiona a _______ do salário, não é ___________ por lei mas por jurisprudência; Verso —> redução, regulamentada

b) Frente —> O que é sistema?; Verso —> Conjunto destinado a um ordenamento de elementos em relação para compreede-los

c) Frente —> Sistema Germanico – Não cumprimento da autocomposição acarretava em ….; Verso —> resolução pelo duelo

d) Frente —> Lex Valeria de Provocationes; Verso —> Possibilita recurso dirigido a assembléia popular buscando reforma de decisão que condenou a morte ou substituição por exílio perpétuo.

e) Frente —> Roma – 753 a.C. ; Verso —> Autocomposição dos conflitos

f) Frente —> Sistema Germânico : Duas formas de auto composição ;  Verso —> Vergeld – Pagar o preço da honra e Virdgeld – Preço do dano material

Algo muito importante na memorização é relacionar cada lembrança a uma sensação, especialmente diversão, mas infelizmente o Direito raramente é divertido, então para que as cartas funcionem elas tem que ser fáceis de lembrar, não basta retirar qualquer palavra para criar lacunas, não basta inventar perguntas com respostas muito longas, conceitos complexos demais, causas demais para numerar… Tudo deve ser pensado de forma que seja feito um esforço para responder antes de ver o verso, mas sem que seja difícil demais de forma que voce precise ver o verso para responder.

Muitas vezes quando me deparava com cartas muito complicadas tinha que deletá-las ou reformular o formato. É muito importante não ter medo de deletar cartas ruins ou refazer. É muito importante não fazer cartas simples demais que só tomam tempo de criação e revisão.

Após ver isso todo mundo vai pensar que é esforço demais usar o anki. De fato exige tempo e dedicação é não é essencial para passar de ano e aprender coisas com as quais temos muita afinidade ou contato diário, mas o que ele dá em troca pode compensar. Ele diminui muito o stress antes das provas pois em vez de ter que me desesperar para aprender tudo em um ou dois dias em geral já estava com o conhecimento consolidado não só pelas revisões dárias do anki, mas pelo próprio esforço de selecionar as informações essenciais, estudar, pesquisar, de forma que o meu tempo de estudo em véspera de prova foi reduzido no mínimo pela metade. Outra vantagem é a memória de longo prazo. Geralmente quando estudamos em véspera de prova no dia seguinte o conhecimento foi perdido, com o anki ele dura muito mais tempo. No segundo semestre algumas matérias tinham conteúdo cumulativo, e até o fim ainda fui capaz de lembrar coisas do primeiro bimestre sem precisar estudar.

Enfim, o anki torna conhecimentos importantes que não temos contato todo dia em algo cotidiano, então há um esforço natural de memorização, e esse ponto é essencial no estudo de kanji, afinal, os japoneses entendem bem pois tem contato diário com eles, com esse método podemos nos aproximar dessa experiência. O método aplicado ao idioma ficará para o próximo post.

o/

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12 Respostas para “Como eu estudo – Parte 2 – Anki e o Direito

  1. Não conhecia o método anki. Se é alguma coisa que facilita o estudo e vc já comprovou, vou buscar mais informações e testar o famoso anki. Continue assim, estamos todos torcendo prá vc.

  2. Oi! ^^

    Li o último post assim que você escreveu, mas decidi esperar por esse agora para comentar…

    Anki… tinha ouvido muito sobre ele, mas nunca abandonava a preguiça para ir lá baixar e descobrir como usar. O seu post fez com que eu me movesse. -u.ú-
    Eu baixei um deck pronto com kanjis, e logo de cara percebi que não ia servir para muita coisa… Então comecei a tentar imaginar um jeito útil de fazer os meus próprios cartões.
    E então o seu post caiu do céu! \o/ Muito interessante ver a forma como você organiza a coisa toda… Mas veja como você é ruim: justamente sobre kanjis que eu queria ouvir, você ainda não falou nada! /o/ Vou ter que esperar o próximo post…
    Kanji é terrível, penso eu, porque às vezes você pode até saber ler um kanji, mas escrever… nem sempre ter a memória de leitura é a mesma coisa que ter a memória para a escrita, não é? Por isso quero tanto saber qual o seu método da palma da mão divina!

    E a propósito… parabéns! Pelo incrível senso crítico que você demonstra quando faz suas observações e escreve neste blog… pela dedicação com que estuda, pela determinação toda…
    Sério mesmo, convenhamos… não é qualquer um que consegue se empenhar desse jeito. -u.u- E olha que é uma nerd quem está falando isso…

    Bom, espero que as coisas continuem dando certo por aí! Genki de ne! -^.^-

    • Obrigado pelos elogios haha.

      O post sobre Japonês vai vir logo, mas até lá sugiro que dê uma olhada aqui :

      http://www.alljapaneseallthetime.com/blog/all-japanese-all-the-time-ajatt-how-to-learn-japanese-on-your-own-having-fun-and-to-fluency

      Os posts são bem escritos e em geral interessantes. A primeira parte é meio auto ajuda meio desenvolvimento pessoal, e ainda assim contem alguns pontos de vista bem diferentes, mas a partir de “equipaments” as dicas se tornam bem concretas para o uso do Anki, boa parte de tudo que fiz foi baseado nesse site, adaptando ao meu estilo 🙂

      Quanto a escrever kanji… bom, escrever toda vez que se revisa uma carta ajuda muito mas toma um tempo muito grande, impossível manter essa postura sempre, o que eu sugiro é tentar escrever cada kanji ao menos uma vez, e toda vez que estiver revisando escolher alguns que parecem mais difíceis de lembrar e escrever. Outra coisa que me ajudou bastante foi o método Heisig de criar frases bizarras para lembrar de kanjis, mas sobre isso eu vou falar no próximo post (mas tem lá nesse blog que eu passei) 🙂

  3. Olá Eduardo!

    Estou direito para concursos e estou baixando o programa “anki” e gostaria muito de saber se você disponibiliza as cartas que você já fez para outras pessoas e se eu poderia importá-las para o meu programa para otimizar os estudos. Obrigado!

  4. Pra mim o Anki caiu do céu, sou estudante de Direito, primeiro semestro.Quero faxer Concurso Público para Delegado Federal, por isso tenho q sedimentar as informações desde o começo senaum naum vou passar e acabarei tendo q recorrer a cursinhos daqui 5 anos!

    Vou criar meus decks, mas se vc puder passar os seus do 1o ano agradeceria mto rsrs

    abs, meu email tah aí. Patabens cara!

  5. Amigos,

    Excelente conteúdo. Preciso de ajuda.
    Toda vez que crio um novo cartão no Anki ele vai direto para o baralho padrão, independente de qual eu seleciono. Assim, tenho que ficar indo no painel na opção mover cartões e alocá-los nos baralhos certos, tá saco isso viu. Podem me ajudar???

    Obrigado

    • Quando você está adicionando uma carta, no topo da “caixa de adicionar” existem dois campos, um chamado tipo (que pode ser o básico ou o japonês e etc), e um chamado baralho, que diz para qual baralho vai a carta. Via de regra se você clica em adicionar quando já está dentro do baralho, o padrão é o campo indicar o mesmo. Pode ser que você tenha mudado alguma configuração sem querer, então a solução é simples, observe o nome no campo “baralho”, se estiver no padrão, basta selecionar outro.

  6. Comecei a usar o anki pra estudar direito a pouco tempo, especialmente controle de constitucionalidade, gosto do assunto, mas estou tendo dificuldade para fixar informações cruciais. Tenho um pouco de medo, pois sou muito presa a fichamentos, os quais me tomam um um grande tempo e talvez não tenham a eficiência que eu gostaria. Aí estou um pouco em dúvida se largo os fichamentos e passo para o anki… Não ter nada anotado para olhar me deixa nervosa, ahaha (se bem que o anki não deixa de ser algo anotado, mas um pouco diferente). Obrigada pelo post foi de grande ajuda! 🙂

    • O Anki convive com anotações. Ele é bom para a memória de longo prazo, mas para organização do conteúdo e para memorizar coisa de última hora as anotações ainda me parecem necessa´ria.

  7. Caro Eduardo, vejo que até hoje, depois de anos, a sua postagem faz sucesso ainda. Não por acaso eu a encontrei. Mas precisava de um conselho seu, se por favor pudesse me ajudar.

    Eu justamente baixei o Anki por conta do japonês, mas adivinha só: agora o estou usando para legislação, mesmo (de certa forma).

    Não sei se você chamaria de legislação, direito marítimo ou outro nome, mas creio que o conceito seja parecido e o método também com o estudo do direito. E é nisso que queria pedir a sua ajuda.

    Na bibliografia constam algumas leis e decretos, mas a pior parte são as NORMAM (Normas da Autoridade Marítima). São cerca de 20 que estão na bibliografia, sendo que a primeira tem mais de 500 páginas e há outras também com centenas de páginas e uma ou outra bem menor (se despertar seu interesse, as NORMAM pode ser vistas em http://www.dpc.mar.mil.br, salvo engano).

    Queria saber o seguinte: eu devo montar um baralho (“Deck”) para todo o conteúdo da prova ou crio um deck para cada documento separadamente? Se forem vários baralhos, como são os estudos? Estudo todos os baralhos todos os dias ou término um e começo outro (creio que fazendo assim eu vá esquecer todos os baralhos mais antigos ao terminar os mais recentes, já que deixarão de ser exercitados).

    Mais uma coisa: considerando que a prova é lá por agosto, quando pensei em quanto ler por dia, já estava estabelecendo uma meta de umas 20 páginas de leitura por dia. Só que agora além de ler terei de criar os baralhos. E não só isso, mas também criar a tempo de estudar pelos mesmos. Então estou meio perdido em como me organizar.

    Pelo que vi das provas anteriores, as maiores pegadinhas não são conceitos, e sim quando os conceitos e definições estão certas, mas trocam a entidade ou órgão responsável por algo (não sei se fazem isso no direito). Por exemplo, escrevem uma frase toda correta, mas no meio do texto dizem que a Diretoria de Portos e Costas é responsável por X, mas na verdade é a Capitania dos Portos. Também mudam muito os prazos: 15 dias úteis, 30 corridos, 5 anos, 2 anos, e por aí vai.

    Foi então que seu artigo me abriu os olhos para as lacunas. Eu estava pensando que o melhor jeito de aprender seria não dar pista nenhuma. Ao ler seu artigo primeiro olhei com desconfiança o fato de você usar lacunas, porque você está “se ajudando”. Está dando uma colher de chá para si próprio. Na minha cabeça tirar três palavras de um parágrafo na verdade seria dar de bandeja para si mesmo todas as outras palavras.
    Mas foi aí que pensei que numa prova de múltipla escolha realmente você não precisa decorar tudo, mas os pontos cruciais, chave. E você me fez perceber também que o contato constante com as frases para tentar lembrar as lacunas faz com que você acabe lembrando a frase toda, mesmo (ou estou enganado?). Mais ou menos como numa música, que uma parte puxa a outra.

    Aguardo ansiosamente pela sua resposta e mais uma vez agradeço de verdade pelo artigo, que ficou muito bom.

    • Quando a legislação é muito grande, me parece absolutamente inviável colocar o conteúdo inteiro no Anki. Imagine, os Decks nunca “acabam”, considerando 20 cartas novas por dia (que não parece mas é muito conteúdo), em 5 dias você já vai estar revisando umas 100 cartas. Em um mês de estudo vai ser tanto conteúdo para revisar que se torna contraprodutivo. Eu fiz isso com a Constituição, que é uma lei curta até, e com a qual eu já tinha bastante familiaridade, e ainda assim foi pesado.

      O ideal mesmo é fazer um só Deck para o volume de estudo não ser muito grande. Mas também se corre o risco de começar a misturar legislações diferentes.

      Não faço ideia de como fazer para lidar com tanto conteúdo. Talvez vários decks, um para cada tema (e não para cada lei) com os artigos essenciais? Pelo que você disse, a chave é aprender bem os artigos que lidam, por exemplo, com a competência de cada órgão. Vale a pena primeiro dar uma boa lida nas provas anteriores, ler as leis, peneirar os artigos mais relevantes e por apenas eles no anki.

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