Como eu estudo – Parte 1 – A História do meu método

Em um dos posts anteriores falei como é a visão geral dos estudos no Japão, entretanto, como eu tenho alguns métodos bastante particulares de estudo, acho que chegou a hora de falar um pouco deles, especialmente porque os resultados tem se revelado muito satisfatórios.

Comecei a estudar japonês a alguns anos no Curso de Línguas Estrangeiras Oyama. Sempre adorei o método praticado lá, no qual, apesar da existência de turmas o avanço é individual, os professores atendem aluno por aluno na aula e designam tarefas enquanto não estiverem acompanhando certa pessoa. As vantagens do método são muito grandes, cada um avança no próprio ritmo, não perde tempo com o que já sabe, pode ficar mais tempo estudando o que tem dificuldade, tem contato com conteúdo avançado de alguns colegas, revisa o que já viu com as explicações para outros e dá a liberdade para estudar temas fora dos moldes dos livros didáticos. A grande relevância disso para meu método atual é que aprendi lá que aprender um idioma é algo que depende completamente de esforço individual, fora da sala de aula, a orientação é indispensável, mas se você não levar a sério nunca vai aprender nada. Quanta gente não tem diploma de “inglês avançado” e não sabe absolutamente nada? Enfim, escolas de idioma deveriam ser como a escola da Oyama sensei, com um ótimo método, com ótimos professores, com respeito as necessidades individuais e não uma mera sequência de lições (que é também necessária mas não basta) que trata os alunos como se todos tivessem as mesmas facilidades e dificuldades…

Dito isso, confesso que nem sempre me esforcei o suficiente fora de aula de forma que meu aprendizado apesar de rápido nem sempre era o suficiente para memorizar milhares kanjis e as centenas de expressões do idioma japonês, até que um dia ouvi falar sobre o Anki. O Anki (que significa memorização em japones) é um software que se baseia no uso de flashcards, mas utilizando um algoritmo para programar revisões. Explicando melhor, flashcards são aqueles cartões que as pessoas fazem para memorizar as coisas, com uma pergunta de um lado e uma resposta do outro. É um método muito bom, mas conforme o número de cartões aumenta as revisões se tornam cada vez mais longas, muitas coisas já sabemos mas continuam a fazer quantidade pois sabemos que talvez da próxima vez não vamos lembrar mais. Aí entra o algoritmo das revisões no anki. Toda vez que voce ve um cartão tem que dizer se foi dificil, fácil ou muito fácil, com base nessa resposta ele vai calcular quando voce precisa ver de novo a carta. Na primeira vez geralmente vai ser em 8h, na segunda vez 2 dias, depois 5, e assim por diante.

A questão é: como ele pode saber o intervalo necessário de tempo? Com base em que o algoritmo foi criado? Buscando as origens do Anki cheguei ao Supermemo, o programa pioneiro desse método criado por Piotr Wosniak. Ele estudou o funcionamento do cérebro, em especial no que se refere a biologia molecular relacionada à memória. Quando aprendemos algo os neurônios fazem uma ligação, e aos poucos essa ligação vai se desfazendo, se ela se desfizer completamente relembrar fica muito difícil, se revemos essa informação antes da ligação se desfazer ela se torna mais forte. Assim, não basta pegar certa informação e repetir diversas vezes em um curto espaço de tempo pois isso não vai influenciar a força que a ligação vai se formar, é preciso reve-la periodicamente. Outro fator que influencia na força da ligação é relacionar certa memória a uma emoção. É mais fácil aprender coisas se divertindo, com jogos, da mesma forma como é mais difícil esquercer coisas tristes e dolorosas. Com base no primeiro fator, o do tempo, Piotr Wosniak desenvolveu o algoritmo do super memo, de forma que ele programe as revisões nos melhores momentos para que as ligações seja reforçadas, assim não perdemos tempo revendo coisas que já sabemos bem e não deixamos que as ligaçõe se desfaçam e todo o esforço seja jogado fora. Teoricamente esse método gera um aproveitamento de 93% (ou algo assim).

Eu estava meio cético, mas decidi tentar com Direito e Japonês. Direito pois o método foi pensado para conhecimentos em geral, Japonês pois me deparei na internet com o Khatzumoto, um cara que alcançou a fluência em japonês em 18 meses, morando nos EUA, utilizando de forma eficiente o método de SRS (Spaced Repetition System) desenvolvido pelo super memo. Se não me engano ele optou também pelo anki por esse ter certas funcionalidades que facilitam o uso para o Japonês.

Enfim, Khatzumoto em seu blog dá muitas dicas de como criar cartas úteis, mas também reforça bastante que o conhecimento tem que ser “divertido” para que seja mais fácil de lembrar. Não adianta só fazer cartas cansativas para decorar. Elas tem que se relacionar com coisas que voce realmente quer aprender. No caso de idiomas podem ser trechos de livro, diálogos de filmes e desenhos…

Juntando tudo que encontrei no site do super memo, especialmente com relação ao modelo das cartas (em vez de perguntas criar cartas do gênero “preencha as lacunas”) mais as dicas do Khatzumoto sobre como ir atrás de boas frases, boas ferramentas para ajudar na busca, dificuldades que poderia encontrar, erros que devemos evitar, enfim, juntando a teoria e a prática de alguém que teve sucesso com o método. Como os resultados só aparecem a longo prazo e as revisões tem que ser feitas TODOS os dias, decidi entrar de cabeça no método e me usar como cobaia. Durante 6 meses da faculdade decidi usar o método e não usar nos outros 6. Quanto ao Japonês, juntei alguns livros e ferramentas, e ajudado pela sensação de independência de aprendizado que consegui na escola da Oyama sensei, decidi testar e ver em 3 meses se haveria alguma diferença.

No próximo post contarei os resultados das experiência e mostrarei de forma mais concreta como é o meu jeito de tornar o método efetivo.

Anúncios

7 Respostas para “Como eu estudo – Parte 1 – A História do meu método

    • Sim, é um ótimo lugar para se viver, muito seguro, prático, confortável, muito tranquilo e com muitas coisas diferentes do Brasil para aproveitar.

  1. Olá, Eduardo.

    Tenho acompanhado seus relatos e, puxa, são muito interessantes.
    Também uso o Anki, mas apenas para línguas. Fiquei curioso ao saber que o utilizas para outros fins, como o Direito. Poderias dar mais detalhes quanto a isto? Faço o pedido pois comentaste que irias aprofundar no método no próximo post, de forma que achei que seria um ponto interessante.

    De qualquer forma obrigado, e grande abraço!

  2. Uso o Anki para estudar linguagens de programação e padrões, é muito bom, você nunca mais esquece o que estuda, fica tudo na ponta da lingua.

    O método que uso é fazer perguntas simples do conteudo, muitas perguntas de diferentes formas, ex:
    P: Qual o atributo CSS usado mudar a imagem do background?
    R: background-image: url(imagem.jpg)

    P: Para que é usado o atributo background-imagem?
    R:Para setar a imagem a ser usada no background.

    Assim faço, para cada questão a ser memorizada eu faço o maximo possível de perguntas a respeito, no exemplo eu fiz a pergunta ao inverso, isso faz com que reforce o aprendizado, é algo que parece até infantil, mas se você estudar assim guarda para sempre, desde as coisas simples até as mais complicadas, fica na ponta da lingua.

    Parabéns pelo post.

  3. Pingback: Anki para Exame da OAB ( e talvez para concursos) « Nihon Go !·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s