Japoneses preguiçosos?

Geralmente temos a imgem dos japoneses como pessoas que trabalham muito duro, extremamente disciplinados, que se mantêm no mesmo emprego durante a vida toda, com alta produtividade, sempre economizando o salário (inclusive o excesso de economia geralmente surge no noticário como um problema econômico) e etc… Logo, temos uma tendência a imaginar que essa diligência faz parte da natureza do japonês, ou ao menos da sua cultura.

Recentemente em uma das aulas na Universidade descobri que isso não é bem assim, que esse perfil laborioso só surgiu após a segunda Guerra Mundial. Explicando melhor o assunto, na Era Meiji, após 1868, o Japão começou a se industrializar. Relatos dos industriais dessa época revelam um enorme descontentamento com os trabalhadores das fábricas japonesas, conta-se que não respeitavam horários, inventavam todo tipo de desculpa para faltar o trabalho, resgatavam tradições antigas para justificar a criação de novos feriados. Chegou-se ao ponto de ser necessária uma autorização do governo para fechar as portas da fábricas de forma que os trabalhadores não fugissem no meio do expediente. Isso sem contar que mesmo quando trabalhavam não obedeciam bem as ordens, e muitas vezes após o receber o pagamento da semana gastavam tudo no dia seguinte com bebidas e apostas, de forma que se tornou um hábito as esposas esperarem seus maridos no portão das fábricas para recolher os pagamento.

Outra coisa interessante é que os trabalhadores não ficavam no mesmo emprego por muito tempo, qualquer proposta infimamente melhor, qualquer mudança de humor era suficiente para se trocar de empregador. Interessante notar que geralmente as fábricas terceirizavam seus trabalhadores, contratando uma espécie de “chefe” que comandava um grupo e era capaz de manter alguma disciplina entre eles, quase uma pequena máfia dentro da realidade do trabalho.

Como se não bastasse os trabalhadores mais pobres agirem assim, os próprios samurais remanescentes da restauração (que acabou com a castas mas manteve estipêndios, inclusive quando o estipendio foi extinto eclodiu a famosa ultima rebelião dos samurais liderados pelo “honrado” Saigo Takamori liderando samurais insatisfeitos com o fim da vida fácil as custas do governo) não eram por hábito laboriosos, e viviam com dinheiro público sem produzir coisa alguma. Isso inclusive reforça a crítica ao mito do samurai como guerreiro honrado e pronto a sempre morrer por um ideal. Como os próprios japoneses dizem, samurais eram pessoas que se vinculavam a um senhor e em troca de um estipendio, a lealdade e honra eram compradas, não existiam por si só como valores superiores.

Evidente que nem todos eram assim, mas essa era a visão geral do povo japones, a ponto dos próprios jornais publicarem que por sua natureza indolente eles nunca chegariam a ser uma nação desenvolvida. E esse problema se arrastou por muito tempo, afinal, com salários baixos e condições precárias, sem muita chance de crescimento não havia incentivo para trabalhar duro. A situação só começa a dar sinais de mudança quando começou a ser implantada uma mistura de Taylorismo, com um controle rígido de tempo, atividade, eficiência, mas ao mesmo tempo convivendo com um paternalismo representado pela preocupação com o indivíduo. Esse sistema só foi se aperfeiçoar depois da segunda guerra, quando as empresas finalmente deram forma ao modelo em que o salário cresce substancialmente com o tempo dentro da empresa, além de garantias de emprego vitalício. Isso se deu especialmente nas empresas “pesadas”, que pela sua natureza tinham acesso a capital barato, ou seja, juros mais baixos nos empréstimos e maiores linhas de crédito, o que permitia investir em seus próprios empregados. Ou seja, com essa mudança da ética do trabalho, baseada no critério econômico segundo o qual trabalhar mais significa ter uma vida melhor, consequentemente ser mais respeitado pelos outros (sem a necessidade da religião como na ética protestante analisada por Weber), mudou-se completamente a postura dos japoneses diante do trabalho.

Enfim, com isso quero mostrar que a diligencia não é relacionada a natureza de um povo mas às condições em que ele se insere (claro que existe a influencia dos valores predominantes na sociedade, mas ainda assim, não são tão determinantes), nesse sentido é possível entender muito da postura do brasileiro, sempre ansioso por uma folga, por um feriado, afinal trabalha-se muito e não há o retorno devido, não há incentivo para manter a dedicação, e como é uma situação generalizada não há pressão social para se agir de forma diferente. No caso do Japão, ao contrário, a ética do trabalho se impregnou tanto na população que por pressão social (e pressão de produtividade dentro do próprio emprego) casos de suicídio ou morte por causas relacionados ao esgotamento atingiram níveis absurdos na década de 90, e aparentemente agora, com a situação economica pior e menor retorno pelo trabalho as pessoas começam a se esforçar um pouco menos.

O assunto tem muitas outras nuances a serem abordadas, muita coisa que estudamos de forma mais detalhada, mas isso é um blog então não vou me aprofundar mais no assunto, ao menos não nesse post.

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8 Respostas para “Japoneses preguiçosos?

  1. Concordo absolutamente com o que você disse. Quando você diz também : “a diligencia não é relacionada a natureza de um povo mas às condições em que ele se insere” eu tabém acredito nisso…bom, claro que a idéia é muito mais complexa que isso, mas isso seria uma boa frase para o início. Outro fato curioso é que se pegassemos uma criança da idade da pedra e troucessemos para o presente, ensinando ela como qualquer outra cirança ela teria o comportamente igual as crianças de hoje. Isso pode ser analisado em ambito mais geral com relação a populaçoes e costumes.

  2. Eduardo, as observações que vc nos passa são muito interessantes, principalmente vai desmistificando aquela idéia que nós temos de que no Japão tudo é tratado com extrema seriedade, não existe corrupção ( já sabemos que não é verdade), enfim, vc mostra uma realidade que não pode ser desmentida, vc está vivenciando tudo isso. Aguardamos mais novidades. Um abraço. Mozart

  3. Olá Eduardo. Tudo bom?
    Então, gostaria de saber quanto tempo você ficou estudando a lingua japonesa? E você tem um japonês fluente? E onde aqui em Cuitiba você estou a lingua?

    Desde já agradecida

  4. Olá Eduardo. Tudo bom?
    Então, gostaria de saber quanto tempo você ficou estudando a lingua japonesa? E você tem um japonês fluente? E onde aqui em Curitiba você estudou a lingua?

    Desde já agradecida

    • Eu estudo a lingua japonesa a mais de 5 anos, mas com diversas interrupções ao longo do caminho. Definitivamente não sou fluente, eu consigo ler muito bem, entender tudo que as pessoas conversam, mas falar e escrever é algo complicado, mas isso é natural em qualquer idioma, o output é sempre menor que o input.

      Estudei no Curso de Linguas Estrangeiras Oyama, no Edificio Tijucas, 7º Andar, é muito bom e recomendo a todos.

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