Um pouco de cotidiano – Parte 1

Após mais de 2 meses aqui acho que é uma boa hora para contar como seria um dia e uma semana típica minha.

Vou começar pelas aulas e estudos pois no final das contas a maior parte do tempo é ocupada por esse dois elementos, e não só no meu caso, mas qualquer um aqui, até aqueles com jeito de quem não gosta de estudar precisam de ao menos duas horas por dia de estudo individual para conseguir acompanhar.

Nas Universidades japonesas os “horários” são chamados de koma, cada dia tem 5 koma. O primeiro das 9:05 as 10:40; o segundo das 10:45 as 12:20; o terceiro das 13:05 as 14:40 e assim por diante… Diferente das Universidades brasileiras aqui cada estudante monta o seu horário, no caso dos estudantes internacionais existe um conjunto de aulas obrigatórias mais as optativas. No meu caso, por ser nível 1 a carga de obrigatórias é menor, então minha aula só começa no primeiro horário na segunda e sexta, em compensação por ter escolhida muitas optativas tenho uma carga um pouco maior que dos estudantes nos níveis 4,3 e 2.

No início eu costumava acordar cerca de 1 horas antes do início da aula, para dar tempo de me arrumar, fazer café e partir a pé, mas desde que registrei minha bicicleta posso até acordar um pouco mais tarde e em vez de só fazer café ainda preparo algum pão, já que em alguns dias ficava com tanta fome na aula antes do almoço que meu estomago roncava muito alto (o que é um fenomeno comum em todo mundo, algo que eu nunca reparei ou ouvi nas aulas no Brasil).

A pé levava cerca de 20 a 25 minutos para chegar na Universidade, de bicicleta, por ser um caminho de subida leva 10 minutos, mas a volta leva apenas 5. Eu não sabia andar de bicicleta antes de chegar aqui, tinha treinado com o Yuri e o Fernando, o que me deu uma base ótima, mas aqui as ruas são muito, muuuito estreitas, cheias de subidas e decidas e o tráfego de bicicletas é grande, então não basta ter uma base, é preciso ser profissional, então passei um final de semana treinando com o Nick e a partir daí me acostumei…

Voltando aos assuntos acadêmicos, após as aulas em geral eu comprava algum lanche ou almoçava nos restaurantes da Universidade, apesar de que em dias com o o segundo e  quarto horário não sobra muito tempo para comer direito, mas desde que me aventurei a cozinhar tenho feito a noite comida a mais para guardar na geladeira para minha volta ou levar na minha bento box (seria um tipo de caixa de marmita comum entre os japoneses). Ainda sobre comida, também costumo gastar 100 yen por dia para provar algum doce, bebida ou algo diferente.

Em geral com o fim das aulas resolvo qualquer pendência na Universidade e retorno para o alojamento. Já tentei estudar na biblioteca algumas vezes mas meu método de estudo depende completamente do meu computador, já que uso um software chamado anki, que ganhará logo um post só sobre ele, já que devo muito do meu avanço ao meu método com este programa.  Enfim, como nas segundas e sextas feiras tenho a tarde livre, já que tenho aula apenas pela manhã (as aulas obrigatórias seguem um livro didático muito bom, consistem em leitura de textos acadêmicos e compreensão de expressões, vocabulário avançado, compreensão auditiva, produção de texto), desde que registrei a bicicleta ficou mais fácil ir ao centro de Hachioji (falando em registro, ele é necessário para qualquer bicicleta aqui, e a polícia tem o hábito de para estrangeiros e verificar esse tipo de coisa, como recebi da bicicleta do intercambista brasileiro anterior, mas sem receber sua assinatura para transferência tive que dar um jeito de forjar  a documentação apropriada para o registro ).

A pé o centro de hachioji fica a uns 35 minutos do alojamento, mas no caminho há um tunel de 1km insuprotavelmente barulhento e polúido. O único caminho alternativo é um bosque bem agradável (relativamente assustador) mas que leva mais de uma hora. Com a bicicleta chego lá em menos de 20 minutos. Nesses dias prefiro ir sozinho ao centro já que gosto de perambular sem objetivo definido pelas ruas principais, ruas escondidas, gosto de entrar em lojas (especialmente livrarias), parar um pouco para obeservar  que há em volta, enfim, algo que a maioria consideraria entendiante, de qualquer forma sozinho tenho a liberdade de fazer o que quiser por quanto tempo quiser. As livrarias sempre exerceram uma profunda atração sobre mim então fico muito tempo lá dentro, e como a maioria não tem nível para ler sequer os títulos em japones, e mesmo quem está em niveis muito avançados não tem coragem de encarar “literatura de veradade” em japonês, essa é definitivamente uma atividade em que outras pessoas só me atrapalham.

Fora as livrarias, procuro experimentar algumas coisas diferentes, que vão desde sanduiches diferentes no Mcdonalds e Burger King, cafés e doces em Cafés, até culinárias tradicionais japonesas (apesar de que confesso que em matéria de comidas e bebidas tenho uma tendência a gostar mais dos produtos ocidentalizados ou de sabores bizarros mas não nojentos do que de comida tradicional).

Nas terças feiras tenho aulas das 10:45 às 16:20, são aulas optativas bastante avançadas o que torna o dia bastante puxado. A primeira consiste em assistir programas de TV e realizar algumas atividades que vão desde de preencher as lacunas da transcrição do programa até responder perguntas e pesquisar vocabulário. Em geral a primeira metade é algum noticiário ou documentário enquanto a segunda parte é mais light, quando assistimos um anime sobre estudantes de música clássica chamado Nodame Cantabile. Segue uma aula de leitura de um livro com textos de e sobre Osamu Tezuka e por fim vem a aula de estudos para o nível máximo do teste oficial de proficiência em japonês.

Nas quartas feiras só tenho aula de economia japonesa em inglês, que é sempre muito boa, envolver discussões que geram diferentes pontos de vista dependendo da origem de cada aluno, bem como dependendo de suas convicções políticas, fislosóficas e etc. Nesse dia também comecei a frequentar aulas de frances, especialmente para entender a base da pronúncia, gramática, não buscando alguma proficiência agora, mas os elementos necessários para aprender o dioma depois, sozinho.

Nas quintas feiras tenho aula apenas a tarde, sendo uma obrigatória e outra optativa com atividades que vão da leitura de jornais a assistir programas de tv, mas as 17h dou aula de portugues até as 19h, o que torna o dia bastante cansativo, mas é uma atividade bem diferente de qualquer outra então acaba sendo sempre interessante. É bastante difícil conciliar os níveis dos alunos que variam muito, então escolho assuntos que podem ser utilizados de forma simples ou complexa, ensino gramática, faço jogos, além disso o Kentaro tem um domínio grande do portugues e me auxilia bastante.

Todas as minhas noites são uma combinação de estudo, conversa, tv, cozinhar, são atividades que não se separam muito bem, já que procuro levar meu computador e livros para sala, então poderia dizer que as noites são longos períodos de estudo do idioma japonês formal permeados por contato com o idioma do cotidiano e contato com as pessoas e as atividades típicas algumas vezes dos japones, coreanos, australianos. É uma grande mistura de diversão de diversas culturas, bem como aprendizado sobre cada uma…

Os japoneses tem hábitos noturnos e não costumam dormir antes das 2h da manhã, então sigo o mesmo estilo, ficando acordado até as 3h, geralmente. Não precisar acordar as 6h da manhã faz muito bem para minha saúde mental.

Esse post enorme mostra de forma monótona e expositiva um pouco das atividades que tem ocorrido da mesma forma toda semana, a segunda parte será sobre os finais de semana, limpeza, separação do lixo e coisas diferentes que  acontecem, passeios, além de comentários sobre tudo isso.

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8 Respostas para “Um pouco de cotidiano – Parte 1

  1. Eduardo, acabei de ler o livro do Haruki Murakami (“Após o anoitecer”, em português) e ele descreve muito bem a vida noturna de Tokio. Vale a pena ler.
    Como eles veem a literatura aí? Como são as bibliotecas públicas? (são muito informatizadas?);
    E sobre a Copa do Mundo? Como os japoneses reagem à Copa?
    Abraços.
    Rodrigo Kanayama

  2. Uma grande coincidência é que nas últimas vezes que fui a livraria estava justamente atrás de After Dark do Murakami (estava procurando em sebos, que aqui são muito baratos), e o último livro que comprei foi Umibe no Kafka, dele também, que é o que estiu lendo no momento.
    Acho que fazer um post sobre literatura, livros e bibliotecas é interessante, mas posso adiantar que fora os autores populares ou clássicos japoneses eles não se aventuram na literatura de clássicos ocidentais. Quando comprei “A Morte de Ivan Ilitch” os japoneses olhavam e dizia que eu era louco, que nem eles não conseguiam ler. As vezes no Brasil as pessoas também tem uma certa aversão a leituras difíceis por causa do conteúdo, aqui a barreira são os kanjis, as traduções de clássicos utilizam kanjis complicados, gramática meio intrincada e isso acaba afastando muita gente.
    De qualquer forma, no geral não vejo muito gosto pela leitura entre a maioria dos japoneses.
    Quanto as bibliotecas, algo interessante é que é possível entrar com mala, pasta e coisas do gênero, não existe um temor muito grande de roubo. Sempre há muitos computadores também. No caso da biblioteca da Universidade um dos andares é só de pcs, são algumas dezenas (talvez mais de cem) e estão sempre ocupados, já que além de consulta são utilizados para estudos em geral e assistir dvds do acervo.

  3. Aprenda todos os passos do ritual suicida japonês porque é disso que você vai precisar quando voltar para a insuportavelmente entediante rotina quintanista da Federal. Estou até contemplando estudar japonês! — sim, o desespero já chegou nesse ponto.

    No mais, kudos pelo estudo do francês (que deve ser muito engraçado numa turma oriental — e a pergunta sobre sotaque no email anterior era séria; aguardo resposta) e pelo esforço em ler Tolstoi no original japonês, que é como todo mundo deveria fazê-lo.

  4. Andar sózinho pela cidade, observando os costumes, com absoluta liberdade… Isso vc tem a quem puxar!!!!!

  5. Haruki Murakami! Eu tenho o After Dark (e já li, claro, e a versão em português, claro. /o/)! Muito bom! -^o^-
    E com tanto estudo, você vai voltar um monstro em nihongo… -ô.ô- Continue aproveitando bem, né!

    E sabe… pode parecer bobo, mas fiquei curiosa… que tal um post, ainda que curto e rápido, sobre essa lista de comidas e bebidas diferentes que você experimentou? Depois que me falaram da Fanta Leite eu fiquei imaginando quanta coisa doida pode ter por aí para experimentar… hehehe! o/

  6. Nossa, não achei monótono seu post…na verdade parece bastante o estilo que eu mesma usaria… Não sabia que vc também tinha esse habito de vagar sozinho por ai. Isso é uma coisa legal de se fazer. Como a maior parte da minha vida estou sozinha adquiri esse costume ainda muito cedo, mas que hj em dia é algo muito importante e pelo qual eu peguei um gosto muito grande. Acho que quando estiver no japao também vou ter essas minhas saídas sozinha. Que ótimo que as pessoas dai são noturnas…já estou até me sentindo em casa =)
    Nossa…outra coisa, acho que eu também vou acabar me encantando com as livrarias hahaha mas eu digo, “literatura de verdade”. Quando eu chegar ai, será que vc pode me passar seus deks do anki? Eu agradeceria imensamente!
    Saudades de vc Edu

  7. adorei seu estilo de vida e seu modelo de estudo aí,tenho muita dificuldade para estudar o dia inteiro fora q tenho um sono e minha concentraçao nao e tao boa, poderia me dar uma dica!?

    • Complicado, eu sempre tive muita facilidade para me concentrar, mas, minha dica é: se você tem dificuldade de se concentrar em apenas uma coisa, selecione várias e reveze. Por exemplo, está lendo um livro, começou a se distrair (não importa se é em 5 minutos ou 50) pegue outro, veja um filme, faça alguma tarefa, o importante é nao dispersar com coisas inúteis, acho 🙂

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