Um pouco de política

Após a Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação norte americana no Japão, diversas bases militares foram contruídas ou ocupadas em caráter provisório, e posteriormente, em função da cláusula de renúncia a guerra no art.9º da Constituição Japonesa e dos Tratados de São Francisco e de Mútua Cooperação e Segurança a United States Forces of Japan se tornou responsável pela segurança do país, assumindo definitivamente algumas dessas bases.

No campo da política talvez o principal assunto presente nos jornais japoneses ultimamente se refere base aérea de Futenma, operada pelos Marines americanos.  Quando o atual Primeiro Ministro foi eleito, dentre diversas promessas de campanha não cumpridas, prometeu mover a base áerea de Futennma para fora da ilha de Okinawa, ao sul do Japão, e semana passada a insatisfação popular chegou ao ápice quando foi definido que a base continuará na ilha, ainda que sendo transferida para uma região mais distante da atual, que fica em uma zona residencial.

O tema sempre foi muito polêmico, afinal são diversas bases americanas em solo japonês, o que não apenas mexe com o orgulho da população como representa riscos à segurança tendo em vista que muitas se localizam em zonas residencias. Esses riscos não se referem apenas a possibilidade de acidentes mas também ao fato de serem possíveis alvos em caso de Guerra. O problema de Okinawa sempre foi o mais sério pois aproximadamente 20% de seu território é ocupado por bases americanas que representam um incomodo enorme para a população. Bem próximo da Universidade de Soka (próximo o suficiente para ouvir sirenes, talvez 3 ou 4 km) fica a base da Força Aérea Americana, Yokota, e quando os aviões enormes (normalmente Lockheed Hercules) ou helicópteros partem ou chegam o barulho é realmente alto, bastante incomodo…

Mas voltando ao assunto, após muitas tentativas de retiradas dessas bases, como eu disse anteriormente, os esforços fracassaram, desgastando ainda mais a imagem do primeiro ministro. Desde que cheguei aqui quando pergunto a opinião das pessoas sobre Hatoyama (sim, eu pergunto isso) as respostas são sempre as mesmas: “ele é mentiroso”, “não acredito nele, não mantém as promessas de quando foi eleito” e coisas do gênero. Esse caso só veio reforçar esse tipo de postura, que é tão generalizada a ponto que o próprio Governandor de Okinawa declarou que ele e a população se sentiram traídos e desapontados. Uma escolha de palavras bastante forte dentro da cultura japonesa, ainda mais depois do Primeiro Ministro ter pedido desculpais formais a todos.

No final das contas é possível identificar muitas semelhanças e diferenças entre a política japonesa a partir desse caso. Dentre as principais semelhança que observei é que o povo daqui também não confia nos políticos, se bem que em uma dimensão mais relacionada a falta de palavra e menos em relação a sensação de serem roubados, mas no campo das diferenças algo interessante é que, diferentemente do Brasil, onde o Presidente é sempre blindado nos escândalos, aqui o Primeiro Ministro recebe toda a carga de críticas, não se fala de outros políticos, apenas dele. Mas antes que alguém pense que isso é bom, já digo que não é. Por trás do primeiro ministro há não apenas uma série de outros políticos responsáveis pela situação do país, assim como muitos burocratas que tomam e executam decisões com a mínima transparência (as semelhanças retornam…) mas o povo acaba se contrando em apenas uma pessoa. Ainda por cima a sensação de impunidade é a mesma, ano passado foi revelado que Hatoyama recebeu financiamente ilegal em sua campanha, boa parte doações de sua mãe (antes que eu me esqueça, ele é de uma dinastia de políticos, seu avô foi primeiro ministro inclusive) mas a promotoria decidiu arquivar o caso por falta de provas…

Nós temos uma tendência a pensar que no Japão tudo funciona na mais perfeita harmonia, honestidade e etc mas no final das contas existem muitos escandalos, muita coisa feita por debaixo dos pano também. Eentretanto a grande maioria dos atos do governo é feito corretamente e com muita eficiência, os burocratas e tecnocratas tendem a ser escolhidos com base em sua capacidade e formação (apesar de que esse critério geralmente se refere a Universidade em que a pessoa se formou, ou seja, se valoriza mais teoricamente o potencial do indivíduo do que na prática, mas esse é um problema a ser tratado depois). Me parece que os japoneses são mais capazes de fazer vista grossa a certos escandalos de corrupção do que a escandalos de incompetencia. No final das contas os dois elementos costumam ser correlatos, mas o foco neste e não naquele talvez faça alguma diferença…

O Japão é um país bastante elitista quando se refere a política,dinastias de políticos são comuns, propagando política muitas vezes remete ao sobrenome conhecido ou a universidade em que a pessoa se formou (já vi um cartaz que dizia algo como “Vote em alguem que se formou na Universidade de Tokyo, vote em …”). É um sistema que funcionou, mas começa a apresentar falhas em todas as áreas da sociedade, afinal, esse elitismo político reflete práticas comuns na sociedade. A política começa a apresentar mais escandalos que antigamente, a industria enfrenta crises pela falta de concorrência, já que as licitações são viciadas pelo sistema Dango (ilegal diga-se de passagem, mas que existe desde antes do século XVII), no qual as companhias (todas antigas) combinam entre si quem vai vencer o processo licitatório e qual preço será oferecido (sim o Japão é o pai desse tipo de fraude)… Enfim, os sinais de que o Japão precisa mudar logo e drasticamente estão cada vez mais claros, as sucessivas crises são prova disso…

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4 Respostas para “Um pouco de política

  1. a cultura japonesa é bem mais tradicional do que a brasileira. deve ser muito mais difícil mudar esses valores, como o poder das dinastinas e a apropriação da legitimação de instituições pelos indivíduos.

  2. Poderoso!!!
    Será que se você fizer umas críticas aos sem-vergonhas daqui eles renunciam, duvido,rsss.
    Edu, estou adorando ler os seus posts, você escreve e se expressa muito bem, parabéns!
    Aproveite tudo que puder e fique bem, beijos.

  3. É, Eduardo, a corrupção está alastrada por todo mundo. Quem imaginaria que no Japão os processos licitatórios são dirigidos. Parece um país verde e amarelo que vc conhece.

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