Diferentes formas de pensar

Nesse post pensar vai ter dois sentidos, o primeiro é, digamos assim, a atividade mecânica de pensar, ou seja, em qual idioma pensamos e como isso influencia nossas idéias. O segundo sentido é relacionado as diferentes mentalidades de cada país, especialmente na diferença do pensamento ocidental e oriental.

Quanto ao primeiro ponto, geralmente utilizo três idiomas aqui, o mais utilizado é o japonês, seguido do ingles e português. O fato de não usar muito o portugues fez com que ele perdesse uma pouco de espaço também dentro da minha cabeça, o fato é que agora se paro para observar me pego pensando muito mais em inglês, seguido de japones . Porque a ordem de uso não segue a mesma ordem de pensamento que por sua vez não segue a mesma ordem da minha fluência? Imagino que tenha muito a ver com a comodidade de pensar em inglês, visto que não uso muito portugues, ao passo que o japonês é muito mais difícil de ser utilizado para pensar como ocidental. Esse parágrafo está um pouco complicado, para simplificar, onde quero chegar é que o idioma japonês não apresenta um desafio apenas por sua quantidade imensa de palavras (muito mais que qualquer outro idioma) ou simplesmente porque sua estrutura de frases é completamente diferente das linguas latinas, mas porque essa estrutura me obriga a pensar de forma diferente, na medida em que as frases são sempre curtas e geralmente não se conecta mais de duas idéias em uma sentença, o que gera a necessidade de se construir idéias complexas a partir de muitas idéias simples, é preciso construir um caminho muito preciso, ao passo que o portugues ou ingles permite que entre dois “pontos finais” eu desenvolva todo meu raciocíonio.

No mundo fictício do livro 1984 o idioma ingles foi simplificado pois quanto menos palavras existirem menos idéias conseguimos pensar, se em vez da palavra ruim existe a “não-bom” você simplesmente não consegue ter o conceito de ruim… enfim, por ter que pensar simples para chegar no complicado em japones ainda me sinto um pouco preso, sem conseguir chegar nos conceitos que quero…

Quanto a mentalidade diferente, são tantas situações que vou tentar me ater a algumas que surgiram na aula de Desenvolvimento Econômico do Japão. Em primeiro lugar, quanto ao professor, ele ministra a aula em ingles, e por mais que domine o idioma ele não soa muito japonês, não pelo sotaque, mas pelo uso das palavras, por exemplo, quando perguntou se alguem já tinha ido a Osaka e responderam que sim a resposta dele foi “thank you very much” não faz sentido se você não souber que os japoneses sempre agradecem mesmo quando não é momento de agradecimento…

Em certa aula o ponto de discussão era: Devemos limitar a democracia para promover o desenvolvimento econômico? Isso foi feito na maioria dos países da Ásia, através de governos autoritários, normalmente militares. Tivemos que ler dois textos, um  a favor e outro contra. No meu caso cheguei plenamente convencido de que não devemos limitar direitos políticos, por exemplo, e essa foi a conclusão dos outros dois ocidentais, mas todos os orientais acham que devemos limitar sim a democracia. No caso do pessoal de Cingapura, ainda hoje eles tem um governo autoritário e não se incomodam nem um pouco com isso, desde que a economia se fortaleza, não tanto em favor dos indivíduos mas sim da imagem do país, realmente não se importam nem um pouco em ter sua liberdade suprimida (e ao questionar isso eles dizem que é porque não veem nisso uma supressão, o que me leva a concluir que eles mesmo não se consideram completamente livres). No caso dos japoneses eles aceitariam a limitação porque no passado funcionou, e porque tem uma mentalidade também menos individualista (combine um povo que adora viver de passado com esse coletivismo e me parece muito fácil suprimir as liberdades também).

Os chineses são um caso a parte, eles nem tem noção do que é democracia, estou completamente convencido de que na China só se estuda o que o Partido quer que as pessoas aprendam. Entre os “incidentes” da aula algo que me chamou aenção foi o fato de eles nunca terem ouvido falar de Chiang Kai Shek, e por isso negavam que ele tenha sido chinês, assim como nunca ouviram falar do Massacre da Praça da Paz Celestial, ao mesmo tempo que negam que tenha acontecido, o que me leva a crer que os professores devem dizer mais ou menos o seguinte “Os estrangeiros vão inventar muitos fatos e pessoas que não passam de mentira, então quando disserem algo que voces nunca ouviram falar não acreditem e neguem que tenha acontecido”, deve ser algo do gênero.

No final das contas fico com uma impressão de submissão do povo oriental, e sei que essa não é a palavra correta, pois na verdade tem muito mais a ver com o senso de coletividade e com a tradição menos democrática dessas sociedades (apesar de haver argumentos válidos que mostram que não é bem assim, mas não vou me alongar mais nesse tema), mas do ponto de vista ocidental poderia dizer que são submissos, não apenas a idéias de nacionalismo, mas também a idolatrar líderes, como se esses fossem mais aptos do que eles mesmos para decidir quais são as necessidades do povo. Mas como diz Amartya Sen em um dos textos que lemos, não existe um país democrático em que se tenha enfrentado alguma Grande Fome, ao passo que nos países autoritários isso aconteceu muito porque as pessoas não são tão importantes, se não tem o menor poder de escolha dos líderes esse não precisam nem sequer garantir o mínimo para certos grupos, basta que a imagem geral pareça boa…

Essa foi apenas uma reflexões que fiz sobre o tema, mas não vou me alongar muito, e nem entrar no caso dos coreanos, que, por exemplo, na Coréia, só podem ser amigos de pessoas que tenham nascido no mesmo ano, mas o tema é complicado, envolve a existência de outras categorias além do conceito ocidental “amigo” então vai ficar para outra oportunidade. Também fica para próxima as novidades sobre a viagem que fiz sexta feira a Nagano, mas fica aí uma foto do Castelo de Matsumoto, o mais antigo do Japão.

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4 Respostas para “Diferentes formas de pensar

  1. Eduardo, esta diversidade de visão sobre o que é democracia e comunismo é um fato que ocorre de maneira corriqueira na China, Coréia, não que a população queira ficar a margem da realidade deles, mas a atuação dos mandatários ou donos do poder é bastante agressiva, por isso quando conhecem outros países são ” educados” a considerar que tudo o que vem do Ocidente é mentira, nada daquilo que eventualmente seja comentado deve ser entendido como verdadeiro. Acredito que até se imagine que os Orientais são comumente levados a uma lavagem cerebral. Imagine, Eduardo, como devem ser os cubanos.

  2. Olá, Eduardo!

    Nesse post eu comento, pois tem a ver com a minha área de estudo.

    Acontece que os povos com histórico autoritário normalmente têm muita resistência quando o regime não-democrático começa. A partir daí, as novas gerações vão sendo educadas desde sempre (desde casa, escola, tv, tudo) a acreditarem que o coletivo é de fato mais importante que o individual, e aquilo é absorvido como verdade nata, assim como nós, que somos educados no sentido individual consideramos a liberdade uma verdade nata.

    É muito difícil convencê-los de que as coisas deveriam funcionar diferente, pois a tendência é que eles se isolem. Há um cultivo do medo de uma “contaminação” ocidental. Por isso eles evitam aceitar, ou sequer discutir qualquer idéia que remeta a conceitos mais ocidentais de política e economia.

    Se, por exemplo, um Chinês voltar para a China e comentar que soube que democracia é melhor, ele provavelmente vai ser tratado com mais rejeição do que se fosse alguém contaminado pela gripe A. A coação difusa é sempre mais eficiente. A sociedade como um todo é orientada compreender o mundo do ponto de vista de seu regime e assim, quando alguém tenta interferir nessa crença, é imediatamente rejeitado. Chegar a conclusões contra as idéias ensinadas é mais perigoso e menos conveniente do que sentar e aceitar aquilo tudo como verdade absoluta.

    Quando se compreende como o sistema educacional e como a organização da sociedade deles é feita, é mais fácil compreender o porquê da resistência a conceitos diferentes dos que lhes foram ensinados.

    É algo para se ficar horas e horas discutindo…

    • Realmente, é um assunto que me parece impossível de esgotar porque sempre dá para puxar uma idéia ou conceito que aumenta a discussão. Por exemplo, no caso do medo da contaminação ocidental, ele existe mesmo, mas estudamos que a maioria dos países orientais teve uma tradição ou ao menos uma experiência bastante própria de democracia ou algo muito próximo, então no final das contas longe de ser uma contaminação seria um resgate de uma tradição a qual não dão valor, mas como você disse, o sistema educacional e a organização da sociedade (que garante a força da coação difusa) não permite que eles tenham essa visão de regimes não autoritários.

  3. Poxa, não tinha um tema menos polêmico? /o/
    De fato, cultura, visão de certo e errado, orientação política… essas coisas são todo um universo para se discutir…

    Bem interessante isso que você contou sobre a aula de Economia, com uma divisão clara de opiniões entre os orientais e os ocidentais sobre a democracia.

    Eu tenho lá minha impressão de que o tempo, o contexto para a vida das pessoas, é algo determinante, mais ou menos como a Thabata comentou… Por exemplo quando você percebe que as pessoas um pouco mais velhas aqui no Brasil (na idade dos nossos pais, mais ou menos) parecem ter muito mais propensão a dizerem que queriam a volta do regime militar para corrigir a sujeirada toda por aqui. Já muitos dos mais jovens torceriam o nariz só de pensar (ok, não entro aqui no mérito da minha opinião pessoal sobre concordar ou não com o regime militar…).

    Talvez porque na época dos nossos pais, fora para os hippies e tal, cercear as liberdades individuais buscando o desenvolvimento do país não parecia algo tão monstruoso quanto parece para os jovens de hoje. Hoje liberdade está na moda. Mesmo que você vá fazer besteira com esse direito, ninguém pode tirá-lo de você. É cultural, para a nossa geração.

    Se um regime autoritário começa e consegue sobreviver tempo suficiente para educar toda uma nova geração no país, imagino que seja mais fácil durar por mais tempo. Você mesmo comentou isso no seu post, como guiar o pensamento do povo para aceitar isso ou aquilo como natural… Enfim, assunto infinito. /o/ Daria uma boa tarde de chá e discussões.

    E Amartya Sen é o cara. /o/

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